quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Fios grisalhos


Nos tempos do tempo escuro
O medo treme,
O amor prensado nos costumes
Trava suas dores,
Os fios já grisalhos fazem
Desistir a madona
De ser mocinha outra vez.

Mas houve o tempo,
Houve o tempo de trancinhas
Antes da viuvez.
Fez-se bonita em sorrisos,
Fez-se mulher, fez-se siso,
Os fios grisalhos confessam
Seu tempo ido.

Nos tempos do tempo escuro
O amor prensado em ciúmes
Extravasa seus queixumes
Trazidos pela viuvez,
Liberta enfim,
manifesta livre para se ser.
Os fios grisalhos esmaecem.
Disjungidos


Dois talantes,
Dois morcegos,
Dois pesos
Duas medidas...

Pois que no disjungir das peças,
O morcego de ponta cabeça
Observa
O talante do maconheiro
Preso com alguns gramas separados
Por seus erros...

Quem paga esta conta
Se o morcego dorme,
O fumante puxa, devagar,
Divagando?

Os pais choram sozinhos
Essa primeira adição.
Não há lei que solte o usurpado,
Nem que prenda o usurpador.
gonorréias

Amigo morto,
Estão a lapidar
Teu corpo.

E da alma quem cuidará agora,
Que não respira mais teus planos?
Quem fará a triagem desses ossos
E das idéias que eviscerastes?
Quem limará tuas unhas
E o poder de unhar alturas?

Amigo morto,
Quem enterrará
Teu corpo?

Quem guiará tua alma, agora solta,
Pelas alturas desse céu limítrofe
Das fugas?
Já não há mais aquelas seqüelas
De acidentes e bebedeiras, ou
A indesejável planura de besteiras...
Já não mais a alvura das coxas
Puras das meninas
Nem a secura das mães delas...

Amigo morto,
Já não pingas as gonorréias.
Quem as cura?
Ponto para as muletas


Alguém surge na calçada em frente,
Sem nome, sem silhueta, apenas
Com disformes passos trôpegos
E uma seca de meneios soltos...

Quem seria a esta hora das vidas
Levadas a sério pelas perdidas
Tropeçadas idas? Nas hilárias terras,
travou com a máquina sua guerra?

Perdeu uma perna, ganhou a batalha
final como quem erra uma vez, mas
Depois acerta sempre a flecha.

Quem se importa com o passo?
Apenas nós dois sabemos disso,
A que cambaleia, eu que assisto.
Acertos 7 BILHOES


Haveria de chegar este dia,
Entre formalidades e as gruas
Uma intensa farsa de alegoria
Espontânea pelas ruas...

Quem mais poderia estar aqui,
Além das antigas companhias?
A memória delas ilude o olhar,
Seria guerra em tempo de paz...

Haveria de começar esta festa
Para os meninos nascidos hoje
Entre as penúrias e confortos...

A gente pode até não acreditar,
Mas existe uma relação de guerra
Entre gerações de paz.
finitos


Nos olhamos
Sem qualquer ternura
Eu
E o desconhecido que caminha
Ao lado.
À frente mãos firmes carregam
O corpo do amigo comum,
Ao qual damos adeus.

Adeus?
Ilusoriamente, pois
Eu e o desconhecido sabemos
Ter o mesmo cortejo
Um dia...
Surpresos da constatação
Nos olhamos,
Agora com certa ternura.

Cúmplices
Lemos nos nomes das lápides
A diversidade
De morrer
Em horas e momentos distintos,
Iguais
Na rotina do coveiro
De cavar verdades...




Cavar os palmos,
Enterrar os ossos.
Fechar os palmos, e,
Com a mesma terra
Acompanhar a mesma reza
Doutros nomes,
Com a mesma farsa
De conformes.

Agora
Eu e o desconhecido
Nos conhecemos melhor,
Nos reconhecendo frágeis
Nas mãos hábeis desses
Homens, sobre a terra
De nossos nomes
Desaparecidos.

Estranhamos
A parcimônia de coveiros
Acostumados a enterrar
Os mortos
Como só uns ossos
Sem nomes...
Sem um ápice
de sentimento,
Hostis ao choro






O vôo da mariposa


Mais simples que parece,
Às vezes beira pieguice
À sombra do que ela desce
Pousando ovos na lousa.

A mão do homem seria
A parte ínfima do erro,
Talvez o seu desterro
Nas deformações do dia.

Pudesse eu ter esse gesto
De premeditada euforia
em dia de calor infesta

Pulsando vôos radicais
Percebe a mariposa
Seus momentos finais.










O fio do tempo


Ficaste ouvindo, anos a fio,
O fio da água...
Os sonhos se esvaindo,
As dores se avolumando,
O tempo a ser medido
Pelo fio da água.

Esses crânios brancos
Não têm palavra,
Apenas seus olhos grandes
Olham
Sem dizer nada.
Vazios de intenções
Medem a temporalidade
De sua expiação.
finitos


Nos olhamos
Sem qualquer ternura
Eu
E o desconhecido que caminha
Ao lado.
À frente mãos firmes carregam
O corpo do amigo comum,
Ao qual damos adeus.

Adeus?
Ilusoriamente, pois
Eu e o desconhecido sabemos
Ter o mesmo cortejo
Um dia...
Surpresos da constatação
Nos olhamos,
Agora com certa ternura.

Cúmplices
Lemos nos nomes das lápides
A diversidade
De morrer
Em horas e momentos distintos,
Iguais
Na rotina do coveiro
De cavar verdades...




Cavar os palmos,
Enterrar os ossos.
Fechar os palmos, e,
Com a mesma terra
Acompanhar a mesma reza
Doutros nomes,
Com a mesma farsa
De conformes.

Agora
Eu e o desconhecido
Nos conhecemos melhor,
Nos reconhecendo frágeis
Nas mãos hábeis desses
Homens, sobre a terra
De nossos nomes
Desaparecidos.

Estranhamos
A parcimônia de coveiros
Acostumados a enterrar
Os mortos
Como só uns ossos
Sem nomes...
Sem um ápice
de sentimento,
Hostis ao choro