domingo, 4 de março de 2012

púrpura


A moça veio chegando
Como quem queria nada,
Foi dedilhando o piano
Marcando a sua estada.

O que seria do sapato
vermelho, rosa no cabelo,
meia redada...Não fora
o piano e sua estada?

Dois longos minutos
Lentos... uma estacada,
Quem conhecia a moça

Com sua flor coronata,
Seus dedos dedilhando,
Assim prendada?
promessas


Não deixe quebrar teu coração
que é meu.
Não deixe quebrar meu coração
que é teu.

Nos prometemos uno,
Nos dividimos em emoções,
Compartilhamos a geração dos filhos,
Compartilhamos a geração de fotos,
Compartilhamos a geração de problemas... e soluções.

Não deixe esta alma se desprender,
Porque quebraria em dois
O que unificado
Foi.











Itanhaem


A um dia de distância,
Numa noite de lembrança
Atravessar os pensamentos
Inscritos na pedra fria.

Da experiência a fé exposta
Em todos os atos costumeiros...
Derrotas? Apenas a face
Primeira das vitórias.

A outra vez, o vento do mar,
O sal do vento salgando
As faces lívidas e o encanto...
Ah, o encanto de estar

A um dia de distância,
Numa noite de lembrança
Atravessando os pensamentos
Inscritos na pedra fria.
gumareiros


A gente caminhava junto,
A gente se divertia junto...
De repente a gente
Se separou nas trilhas,
Desencontrou-se nas metas,
Distraiu-se nas ofertas...

Agora a gente não caminha,
A gente não se diverte,
A gente nem se vê mais...
E não se perde na memória.
Os desencontros passaram,
As distrações foram embora.

Desencontrados na meta,
Distraídos na oferta.
De repente a gente
Sozinha se derrota.
A gente passou da medida,
A gente virou história.







Em memória


O menino morto
Será sempre um menino.
A foto em sua campa eterniza
Sua meninice,
Feliz dele que não crescerá nunca?

Infeliz dele que permanecerá
Na lembrança menino?
Talvez fosse melhor para todos
Não ter a foto
De em menino,

Assim como os outros cresceram
Ele cresceria junto
Na impressão dos fatos.
Escolheria uma companheira,
Brigaria por um canudo,

Estenderia sua mão grossa
Aos outros meninos,
Filhos seus...
Mas não, o menino morto,
Será sempre um menino.
Porões


Às vezes a paisagem leda
cansa,
Os porões são a melhor fatia
Desse escuro programando
Clareira...

Tudo o que foi levado espia
a flor,
O sol do outro lado,
Distendendo a paisagem,
Verdeja

Folhagem molhada, ontem
A verdade, hoje utopia,
Apenas o porão diz
a incólume verdade
Deste dia.
Porque sou uma pessoa


Porque sou uma pessoa
Há que haver um ascendente
Meu em algum lugar achado
Ou em algum outro se perdeu,
Não sendo o mesmo eu...

Porque sou uma pessoa
Há que haver uma identidade,
RG, sabe, com minha foto,
Aquela, esquisita, sem sorriso,
Ou mesmo sem vida.

Porque sou uma pessoa
Aqui e no navio, a caminho
Da Europa ou de África,
Ou de algum outro ponto
Onde eu me seja...

Porque sou uma pessoa
Mesmo que não o seja
Numas horas de medos,
Das fomes, dos degredos...
Das faixas de lonjuras...







Porque sou uma pessoa
E sou ainda a criatura, a
do dia da criação, talvez
Nem com uma costela
A mais para ceder...

Ou um pecado a menos
a cometer, com minha
Vontade de ser eu,
Entre as criaturas que
Se foram, e se o perdeu...

Porque sou uma pessoa
Além de ser uma ínfima
Parte água desse mundo,
Entre as águas diluídas
Nos corpos outros...

Menos eu, que viajei e
Perdi-me das tribos raças
E uivos, e relinchos...
Porque sou uma pessoa
Há que haver um Deus!
O hóspede


Chegou,
carregando um nome
Pesado demais
Para sua miúda pessoa,
Mas todos reverenciam
A pose que embarga vozes,
Uma lágrima se solta,
De nervoso.

Então, na escala de valores,
Solta-te, homem,
De seus tamancos rotos
E viaja...
Que amanhã não terás o
Mesmo hóspede,
Nem sua paz será
Vendida assim barato.

Ele invade teu mundo, homem,
Mas, se nem tu sabes
Que é teu,
Como vai saber o nobre,
Que se perdeu?
Se não ouves
O pensamento dele,
Vai te sentir mais dono
Do que é teu.



Olhe diretamente
Nesses olhos mortiços,
Eles estão medrosos de te mirar,
Pois são acostumados
À baixa das cabeças,
Quando chegam,
E quando partem, deixam rastros
De anomalias para ficar.

Fique ereto, homem!
Não do tamanho do teu corpo,
Mas do de tua alma.
Vê que ele se apequena
Frente à tua resoluta
Imagem?
-Fica ereto, homem, mesmo
Que depois se acovarde.

Estás aqui no teu terreno,
Ciscado e lavrado por ti mesmo,
Então, homem, não se ceda,
A luz é fraca, mas a sombra
É tua, enquanto
Não te amanheça.
Quarta de cinzas domingo


Há mil anos ontem à noite
Perguntaram-me as horas,
O verão mudando ponteiros,
O sábado indo embora...

As crianças dormitando
Enquanto o carro fareja
As poeiras da chuvarada
E o radio anuncia a valsa

Dos carnavais a quaresma
Que dia, mesmo que noite,
Que viagem bem acabada,

Um ponto esperado antes
Uma batida de portas,
O rádio silenciado, o sono...










intempéries


Nem todos os princípios
Retornaram,
Os retardatários se apressam
A chegar antes do dilúvio,
As fraldas da terra firme
Se desmancham
Pela insensatez dos mandantes
E dos construtores radicais
Nas rampas da montanha...
Que se desmancha.

O calendário continua sendo
Sexta feira, antes dos
Finais de cada semana,
Mas não se iludem os passageiros,
A terra está se movendo
Antes...
A vida já foi mais fácil,
Apenas com guerrilheiros mal
Armados.
Agora, a natureza se arma,
E amedronta.