sábado, 8 de agosto de 2015






Meu pai
Guardava uma Torquês,
 Um serrote, um Traçador
 De muito uso,
Dos tempos em que fazia
Taboas das árvores nativas.
Emanava o cheiro do cigarro,
Um ranço rouco
Na saliva, mãos calejadas
De toda uma vida...

E deu-me de presente um violino!



PAI


Eu estava aqui enquanto partias,
Ainda estarei aqui quando fores.
Vi tua calma quando morrias, e
Vai-me morrendo pouco a pouco...

Um pouco a memória te desfaria
Como desfizeram de ti os ossos,
Mas estou aqui lembrando disso,
Provando a mim quanto não posso.

Mesmo que não me tenhas alento
Ainda te escuto quando me ligo
Às horas dormidas do pensamento:

Um tanto memorar cada momento,
A perguntar por mim se te olvido,
A fazer-me chorar quando te lembro




Um cara bom

Meu pai, sempre o cara bom.
Foi, mas não se deixou levar.
Um dia, inda cedo na sua vida,
Contraiu esta moléstia ferina,
Que o levou tempos depois...

A sua coragem em enfrentar
As desavenças da mala-sorte
Faria suspirar a última vez
Dizendo: tô gelado sim, filha,
Mas não tem importância.

Frente ao desespero da filha,
Que a morte é parte do viver,
A parte mais lógica, explicita
Talvez a mais merecida... Ou
Não, mas a parte mais certa.

Nas incertezas de caminhar
Ele dizia e provou que, enfim,
Chegada sua hora, a coragem
Do homem acima do medo
Do macho raçudo de antes...

Este foi o pai que convivi,
Sem abraços e beijos, mas
De um amor rude e sincero,
Nas viagens, nas roçadas,
Nos portões dos sítios, que

Faríamos juntos, eu criança
Ele adulto, paciente quando
Saí do exame para exército
Estava esperando para dizer:
Tudo bem? Como a saber,

Conformando revide muda,
Não precisava de palavras.
Este meu pai, me domou
Fez-me pai também, antes
Orientou-me filho a viver,

Que me respeitou pessoa
A conviver a extrema hora
Como iguais, de mesma fé
Este meu pai, um cara bom,
A erigir um lar de sua casa.

Dedico à memória do passamento
Do nosso pai Domingos, julho de 1967
Nostalgia


Meu pai nasceu em Anápolis.
Mas Anápolis não existe mais.
Meu avô veio de Itália,
Mas Itália está muito longe...
Por isso só vejo poeira
No que ficou para trás
E que o tempo encobriu
Com suas vidas recentes
Que vêm me abraçar.
Meu filho dirá de mim
O que digo de meu pai?
Sei não, meu filho é outro filho,
Não é o filho que fui
Como não lhe sou meu pai.
Anápolis desapareceu,
Do pai só tenho foto,
De mim só tenho eu.





Pais


Quando o conheci
Cuidava suas dores...
E eu menino querendo sabê-las quantas...
Mancava os passos,
Não me fazia abraços
Aquietado ao canto alienava-se.
Quando se foi, conheci que plantara flores, Jabuticabeiras, hortas,
Gali
nhas, cachorros e... Meninos.
Sob o olhar desse pai, a
lheio
Às pequenas dúvidas filiais cresci...
E vejo-me cuidar m
inhas dores,
Meus livros, sonhadas hortas,
E os meninos,
Ainda estou aqui, pai,
Alienado nesse canto
Mancando o passo
Sem fazer abraços
No que perdi.
Oscilações
Ao meu pai (sempre presente)

Quanto tempo, pai, que não vens
Dizer o tempo que me vale ser?
Quanto vivemos ansiar o tempo?
Quanto perdemos vigiar o tempo
De convívio, da amostra de risos,
Das lições vividas? Das perdidas
Chegadas e partidas...

Tempo das severas despedidas
Que se desfazem em vidas...
Tempos de sorrir chorando
A vez de ser tempo passado,
De te ver passando...
Tempo de destemperar,
Tempo de deslembrar o tempo...
Beijar as mãos... Pedir perdão,
Pedir esta benção tempo vida,
Que se fez capaz de sonhar...
De querer querer-se bem,
Que foi este o prometido ser
Para esquecer-se de chorar
tempo ido, que deixou de ser?
Quanto tempo teremos
Para relembrar o comovido
tempo esquecido a esmo?
Que nos deixe tocar as mãos
Que se afastaram há tempos...
Quanto tempo o tempo vale?
Então o tempo que se cale!
Sergiodonadio.blogspot.com

quarta-feira, 5 de agosto de 2015



Pelo perdão da fé


Essas pessoas pastoreadas
Iludem-se com a santidade
Investida nos emissários
de um Senhor que,
de alguma forma,
incorporam, na ideia deles...
Creem, porque se internam
Em seus ternos bem passados,
E fazem crer no incredível
Poder de persuasão ao fraco...
Essas pessoas, quando saem,
São iguais aos agnósticos, ateus,
Que só creem em si mesmos.
Ambos os raciocínios fazem dó
Pela incoerência da crença
E da descrença...
Assim como nós, vós, mortais
Idílicos em paz com a vida
Pregressa e a procedente...
Que nos apraz aceitar
Como presente.

sergiodonadio.blogspot.com

segunda-feira, 3 de agosto de 2015



Uma pedra sobre o assunto


Não se fecha sepulturas
Só com pedras,
É um acontecimento,
Lágrimas... Murmúrios...
Gritos, dores, tijolos,
A subnutrição assassina,
A pólio condena,
O abandono reduz
Estas pequenas criaturas
Em grandes mártires.
É doloroso morrer o velho,
O que dizer do infante
Sem culpas ou glórias,
Só a condenação sumária,
Um número
E a mentira que se espalha
E ri horrendamente
Sua vitória!
Senhores:
Não se fecha estas sepulturas
Só com pedras...

Sergiodonadio.blogspot.com

O banquete da guerra


Quisera estar ao largo,
Navegando sem rumar
Para praia alguma quando
Tudo explode à volta
E se dilui, participo contrafeito
Desta hecatombe,
Não sou radical,
Mas não sou suicida,
Todos se posicionam,
Alguns sobre o muro,
Outros à frente, outros ainda,
Mais sensatos ou covardes,
Atrás das portas.
Que faria se fosse minha
Esta guerra? Não a guerrearia!
Tudo que sobra será derrota,
Não há ganhador ou perdedor,
Só estes montes fedentinos,
Saldo de cada guerra,
E de cada banquete,
Então, por que não banquetear
Se o fim é o mesmo?

Um nome na parede

0 que diz o nome na parede?
Seria donzela ou sonhadora
a senhora acostumada?
Seria nome de maestrina
Ou código do nada?
seria... vago nome na parede
De algum estudante lendo
As obras primas de Dante, ou
As obras de Dante às primas?
Seria a cor do covil?
Seria a forma do nada
o nome cravado a prego...
Seria um nome de santa
Ou o nome da outra?
Seria o nome da amada
Que bastou-se de saudade?
O nome grafado na parede,
Todos vêm nas letras a fada
Dos encantos sonhadores...
Seria um conto de fadas?
Um nome diz uma vida
sobre restos e garrafas...
E sonham, além dos nadas,
Um nome emparedado...

domingo, 2 de agosto de 2015



A parede


Vendo o reboco
Carcomido ao tempo
Tomo consciência de que
Vou vencendo
Meu próprio tempo...
Vai-se desenhando
Chuva após chuva
Mapas desiludidos
Nos tijolos postos nus
Mostrando ao tempo que
Se vai vivendo neste reboco
O roído tempo oco.











Vez ou outra


Vez ou outra
Nos vemos ainda,
Eu e o menino que fui,
Pedalando sobre bicicletas
Que passam com seus novos
Meninos perpetuando
A sempre mesma festa...
Aquela em que fui crescido
Numa quadra ida às pressas.
Não sem o sentimento da perda
Do imerecido nessa...












Passagem


Descarrego sentimentos
Como um trem de carga...
Vagões de alegria
Vagões de tristeza,
Vagões de saudade das asperezas.
Bebemos o sol da manhã
Em fins de tardes
Como o trem chegando madrugada
Acordando os vizinhos
Com o susto de sua chegada...
Alguém ainda brinca com crianças
Como fossem bonecos...
O trem parte
Deixa uma tarde sem esperança
De madrugar de novo
Descarrego sentimentos
Com a despedida,
Que o trem já foi
O trem já foi
Já foi...




Amanhã, quem sabe...


Amanhã, quem sabe,
O céu seja suficiente
Para chegar ao cume
Da sapiência
E zerar as fomes
E as indecências...
Amanhã,
Quem sabe a vida
Se torne vida realmente,
Entre paradas cardíacas
E isquemias latentes...
Amanhã que sabe
Saibamos por de molho
Nossas ofensas
E pedir desculpas,
Se não ao outro,
A nós mesmos.


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