domingo, 4 de agosto de 2013



Privilégios tardios


Esperamos no frio da madrugada
Pelo calor do sol amanhecido,
Esperamos pelo dia escancarado,
Pela penúria vencida a laço
No laço das armadilhas.

Mas foi fora de compasso
O passo das regalias, do riso solto,
Do dia amanhecido antes do calor
Das amizades e do amor bem vindo.
O que vier agora será tardo...

A dor das andanças principia
Antes de aquecer o sol meio do dia,
O dia em meio é mera utopia.
Passadas as manhãs, ainda esfria
A borra dos ungüentos na estria.

Já não sofremos o frio da noite,
Sofremos o frio meio do dia.
O vento leve já é um açoite
À vontade de partir neste dia
Que enlaça a armadilha.


Em memória


O silêncio do retrato
Julga o comportamento ofensivo
Do ledor de cada riso...
Faz tempo que foi embora
O retratado, fica na memória
A espera do próximo ato,
Seja ele visível ou impercebível...
Está impresso no retrato.

Não acordem a ordem primeira,
Daquele dia esmerado
De festa e riso e fado...
Faz tempo, que não demora
Será também apagado
O impercebível sarcasmo
Impresso naquele ato,
Agora acovardado.


Expungires


A luz que vês ao longe
É inalcançável
Por sua efemeridade...
O brilho desta luz ofusca
Teu olhar para o futuro,

Que está logo à sua frente.

A luz é brilho na escuridão.
Depois lucidezes se apagam,
O que fica da brilhosidade?
O lugar onde o lixo se esconde
O resto das cinzas se aplaca,

Gerando ações e maus cheiros.

Daí teus olhos te traírem,
Mas é apenas um momento
Em que se desintegram
Os luminares perdedores
No sal variedade de vidas.


Parêntesis


Entre parêntesis
Cabem todas as verdades,
Até as inventadas...








Versões


Verdade é, ou seria,
Que todas as mentiras
Maturadas
Transformam-se nisso,
Assumem o tempo
De verter e converter-se,
Se não delineadas e discutidas,
Contrapostas por outras...
Que podem ser também
Inventadas.


Perdições


Nesta idade
De não brincar
De esconde esconde
Procurar aonde?


Das conseqüências

Vim chegando devagar,
Olhando para os lados,
Rindo para os lados,
Às vezes chorando
Para os lados...
Perguntado pela derrota
Alcançada a cada vitória.
De lado a lado chorado
Respondido fui
Pelas conseqüências.


Aqui


Ontem ao anoitecer, ensimesmado,
Esperando o sol mandar-me dormir,
Acalentei a idéia adsorvida de partir...
Sem êxito a cada vez pensado nisto,
Volto a olhar o sono como lenitivo
Para todas as dores de viver e ser...

Mas em verdade vos digo meninos,
Se ficarmos aqui, aqui fixaremos,
Que partir depende de mochilas
Cheias de vital esperança, vazias
De compromissos nostálgicos
Com os andamentos vencidos...

Que a idade transforma a cada dia
Esperança em machucada saudade
Até que uma esteja vazia, exausta,
E a outra cheia, vença, e faça deitar
Ao sol posto e dormir idéias antigas,
De partir, distendidas no ficar aqui.