sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014



freqüência


Fora da idade da vida
A idade da morte
Assusta o descontrole
Das horas vencidas...

Subjugadas num chão
De brisas falhas, calhas
De cicatrizes amargas
Frente às animosidades.

 Vencida a parte de ira,
Sobra um pouco o suor
Da lida, vida, estreitada

Entre pilastras o peso
Da próxima arrancada,
Marcha apenas de ida.










No interior da vela


Queima uma alma límpida,
O pavio açodado pela
Glicerina espalha num pires
Formando um mapa íris.

No interior dessa alma vela
A cera de uma vida áspera,
Passeada de alvores e tiradas
De uma raça ascendente dela.

Quem se esvai nessa fumaça
A formar uma nova estada?
O pai de meu alhures?

A praça de avós, dormentes
Nas suas campas lívidas?
Algum qualquer parente...



esmoreceres


Quando o casal cometeu
uma criança, sem perspectiva...
Não havia esperança,
Apenas o prazer do gozo.

Enfim, se desligaram, amplo
Aspecto ruim das relações,
Terminam antes de começar
Verdadeiramente.

Quando o casal cometeu-se,
Riu-se de suas estripulias
Sem consenso, só alegrias.
Mas agora choram o censo

De terem cometido a criança,
que, de fome se estreita em
Alquebramento pelos cantos
Desta vida íntima miserável,

Em que se imbuem na derrota
Da palavra sob a força
Do instinto selvagem, iludisse
A desesperança.



Mormente


Aninhamos... caminhamos...
Sem pensar nas pedras,
Sobretudo nas pontiagudas
Pedras desse descaminho.

Estreito logradouro calhau
De intenções e desrazões...
Enfim, a face bárbara
Das ações de ira e pranto.

Espanto? Apenas ao primo
Toque, não antes de gelar
As glândulas salivares...

Aqui nos desencontramos,
Nós que nos prometíamos
Mais que pares, piras.









O dia de vidro


O dia de vidro não se quebra
A cada mão que o abata com força,
Como a esmurrar uma raiva
Concedida.

0 olhar da mãe
Traduz a maternidade da vez,
A vez primeira concebida quando
De malícia se o fez.

A vez segunda...
Ah, a segunda vez a maternidade
Se impõe sobre a mão crime
Que se abriu em sangue.

A vez terceira quando
A mãe abençoa o filho e perdoa,
Só ela, o que ele fez, de mau,
Que só a si não era.

A mão definitiva em oração
Pelo filho que trucida uma família
Sem perder de vista a oração
À mãe pedida.



compunção


Com idade
Para ter vivido
Tudo que a vida possa
Ter servido,

Pede que volte a ser o que
Não foi, que em verdade
Desdobrou-se em dois...

Pensa compungido
Que deveria ter ouvido
Mais do que querido
Nos depois.












66


Trago todas as idades
Vividas uma a uma,
Em plena praticidade.
Nunca pela metade.

Dormi nas horas vagas?
Nunca horas vazias...
Apenas as ocupo assim,
Nas iras madrugadas...

Conheço as miudezas
Das ações e ilações que
Participei nesses dias...

Vivi-os como efêmero,
Cerquei-os por perenes
Nas memórias gratas.










Certos dias


Dia sim dia não
As pessoas acordam felizes.
Que não seja hoje
O dia não dos aprendizes.




Pela janela


As nuvens se mexem...
O vento mexe as folhas,
As pessoas continuam
Fabricando outras pessoas.



restrições


O menino volta calejado
Das amarras do veleiro.
O velho está calejado
Por não mais pode-lo.







Tempos mudados


Em outros tempos se dizia:
-Ou faço uma coisa ou outra.
Agora dizem, sem tempo:
-Ou faço uma coisa, ou...
Duas coisas junto.








Submissão


Esses corpos ambulantes
Não fazem seus destinos.
Apenas caminham juntos,
Separadamente.

Sangram esses corpos suas culpas,
Mais que suas promessas e sonhos,
Menos que suas imagens poluídas
Desfeitas pela brisa dos ontens.

Esses corpos cobrem pesadelos,
Um tanto por seguir mesmos erros,
Um tanto por se desfazerem deles,
Mas sempre com arrependimentos.

Haveria outro caminho, mais penoso?
Talvez mais legítimo, mas abandonado
Por sozinho. Esses corpos se escoltam,
Se avizinham, mas não se abraçam.

Esses copos se imiscuem
Por jazer de seus destinos,
Ao invés de encastramentos,
Apenas descaminhos.