terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Perigos da ambição

Ainda estaremos aqui
Quando
Se forem os meninos...
O toque dessa flauta
Espanta os ratos
E germina ambições.

Há um perigo enorme
Na presença de homens
De fé cega, (ou nenhuma)
Cuidado com os que
Se fazem grandes
Pelo talento único

De criar fortunas...
De olho na falha de homens
Viajam os meninos
Um enorme susto
Pelas sombras dos intentos:
Uns têm bombas

Outros a palavra,
Ambas armas perigosas.
Cuidado, muito cuidado!
Esse dragão das maldades:
A esperança,
É a última que mata.
Crosta


Em esquálidos corpos
Flutua a náusea,
Na sarjeta escorre
A baba dessa chuva...

Enfim limpo o solo
A água expõe livre
Seu desvalimento
Perene de nadas...

Nada a perscrutar
O de menos pretenso
Nas sarjetas sórdidas,

Um só emolumento:
A forja que molda
A próxima semente.
Acasalados


No passeio esses cães em festa
Ao cio da fêmea assediam...
Ela escolhe. O melhor? O pior?
Este canicho que cobre a cadela
E zarpa, satisfeito pelo feito,
Entre tantos pretendentes...

Reflito:-que geração de órfãos!
Assusto, a cadela abandonada
À sua condição de fértil cio
Lembra o mesmo das meninas
E o assédio da garotada em festa...
Depois o regozijo do macho.

Depois o abandono da prole.
Depois o desconhecido do fato
Em que a vida atropela...
Esses canichos vira latas zarpam,
Fica o dito por não dito, a fêmea
A se procurar mãe de improviso.
Mendicante


Vês este homem que passa?
Estranho, te parece íntimo
Com seus gestos combalidos,
Que não abraças.

Vês este estranho que passa?
Que manca, sofre, e passa
Com sua fome, sua sede,
Na fria carcaça.

Embora te pareça sórdido
É igual à ti nas entranhas,
Nos sonhos, fomes, frio, e,
Nas dores que exalas.

Com aqueles olhos pedintes,
Com os braços largados e
Os pés magoados nas pedras
Alisadas no desafio.

Como este homem te passa
O remorso de o teres visto
Com tua fome e teu frio de
Tê-lo deixado passar
A sala


A sala guarda seus segredos,
Forma, silêncio, a cristaleira,
E sua serventia de copos...
Trilha infinda de lugares,
Altar com seus santos do dia,
Seus guardados inatingíveis.

Seus humores nos cochichos
Do pós guerra, seus silêncios...
Porque tive tantos medos, na
Impertinência de tão menino,
Do olhar do anfitrião ao nublo
Fumo dos charutos e das falas...

Agora sala arejada, pé ante pé
Entro com o medo de menino
E a ânsia dos porquês esquivos,
Me descubro assustado, controlo,
Sou mais velho que tu, à época,
Quando já me parecias velho...

Vejo-o de igual para igual,
Nesse retrato vencido o tempo,
Senhores de nossos gestuais,
Assustando assombrações
Te digo: velho tio, já podes
Enfim, sorrir comigo...
renascimentos


Das sobras do silêncio
Faz-se a cor,
O sol nascente vasculha
As sombras,
Os frumentos rejubilam-se
Ao claro...

Tudo que dormia
Renasce ao primeiro canto,
Que o sono é um pouco morte
Na face pálida,
Que reabre olhos e mentes
E esvoaça.

Assim,
Cada manhã é um pouco
Aquela infância,
Quando uns tantos, dormidos,
Acordam o dia,
Nos retratos.
Levitação


Quando a noite apaga o quarto
É hora de ver,
Onde havia uma cômoda,
Coberta de escovas e perfumes,
O dia lavado...

Chora o extenso fio de memórias,
É o dia, desfiado em silêncios,
Para uma lágrima, um sorriso,
O poder de julgar
O tendo sido.

Altar das rezas profundas, o silêncio
Veste as verdades,
É hora de pedir desculpas
E desculpar o encanto
Dos desencantos...

Quando o quarto apaga a noite
Levito,
Entre lençóis brancos
E a raiva adormecida
Pelo grito.