domingo, 3 de março de 2013
suores
Os sussurros da noite
Rastreiam minhas sensações auditivas.
Fico ruminando certas lembranças
De como aprendi tarde a ler,
De como desaprendi logo a crer...
De como fugi de minhas sensações
Perigando entre elas, alternando
Suores frios e quentes...
De como naveguei nesse mar
Um meu barco sem velas...
De como escorri as lágrimas
Escondidas nas alegrias...
Os sussurros da noite
Invadem meu sono
Mas eu durmo mesmo assim,
Acordo suado, mas satisfeito
Com minhas frustrações menores
Que meus sonhos de hoje
De correr o mundo novo de novo,
Sem as amarras da timidez
De antes.
Reunião familiar
A dobra no vermelho
Faz o rosa sair-se bem,
Olho outra vez, o retrato
Retrata um momento fugaz
De nossas reuniões.
A dobra evidencia a cor
De antes, agora encarnada.
A lágrima seca inda está lá,
Entre os sorrisos falsos
E um copo meado de vinho
Trazido da outra sala,
Onde homens discutiam
O mundo de amanhã
Consertando o hoje
Maculado, aqui as damas
Tomam o chá das intenções,
Já casaram tantas moçoilas
Com seus príncipes,
Saídos das maçãs...
Apenas as crianças se juntam
Sem gêneros atrofiados,
E sabem a verdade
De viver.
Mala de viagem
Arejo a mala tantas vezes vista,
Assento ao fundo as recordações da vida,
Amoldo as peças uma a uma
Alisando as bordas das partidas...
Agora posso dobrar as peças grandes
Para que se acomodem às pequenas causas,
Minhas peças íntimas ficam aquietadas,
Os jaquetões se expandem
Pela mala, preguiçosamente usados
Em momentos de gala,
Guardados do mofo, acobertados,
Seguem tranqüilos a esperar viagens...
Quantas vezes nos deparamos
Com belas mulheres, cenas proibidas
Segredadas ao ouvido dessas peças,
Depois bem guardadas entre fios
De vidas...
desígnios
Fechar a porta de mansinho
Para não acordar a consciência.
Como se ali dormisse outro(a)
Que não podia ser acordado,
Somos o que pariram de sermos,
Nem mais nem menos,
Apenas esses seres pensos
Entre a paixão e o arrependimento,
Tardia desinência da outra parte,
A que saiu antes, pé ante pé,
Para não acordar a gente,
Que inda dormia a confiança
De não estar só.
O bom é sonhar
O bom é sonhar
A próxima viagem...
O bom é sonhar
A próxima miragem...
Mas há os que nem
Sonham viagem alguma,
E,
Para esses a viagem
É a distância de não ir ainda.
O bom é sonhar
Uma casa nova...
Uma nova estiagem
Nessa umidade própria
Da insalubridade tísica.
É bom sonhar
Que ainda haja vida
Nessa imobilidade
Imerecida.
O bom é sonhar,
Mas há os que
Nem sonham sonhar...
Na impossibilidade
Física de o realizar!
Sonham vida alguma
Nas penúrias
De esperar... esperar
A levedura.
Ensina-nos Senhor,
A dançar um tango...
Ensina-nos a pular corda,
A dialogar com os anjos
Que os eram em meninos,
Companheiros idos
Nesses desatinos de
Não mais sonhar
O tempo morrido...
O bom é sonhar,
Que faz bem sonhar
Com os impossíveis
De algum lugar
Inacessível hoje...
Talvez amanhã, talvez
No nunca mais...
Então fica o sonho
Num sono profundo...
Que é bom sonhar
Abraçar o mundo
Que virá de lá, ao vento
Morno do equador,
Ao gelado vento
Dos pólos nevados.
Seja lá o que for
Esse vento forte
Que não foi sonhado.
O bom é sonhar
As distâncias vividas
Em algum lugar
Além das divisas
Desse teu lugar
Entre as paredes
Por ti construídas.
Pra ter proteger?
Pra cercar-te a vida!
O bom é sonhar
A próxima viagem,
Uma casa renovada?
Nem que seja isto:
A indesejada despedida...
Que seja
Uma valsa a despedida...
Que mal faz à vida
Continuar, vazia...
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