quinta-feira, 6 de junho de 2013
Estilhas
De esses fatos velhos postos queimar,
Entre as memórias e as estilhas pretas
De um tempo antes verde vida,
Agora apenas cinzas brancas voando
Entre as folhas desses outonos...
Esse panorama das coisas vividas
Perfaz a ponte entre o aceso porvir
E as pernadas esquecidas do carvalho...
De mim mesmo, junto com seus galhos
Retorcidos pelo fogo, idos na miragem.
Quem pode mensurar as forças, se
Até o carvalho imponente cedeu
Ao corte das floradas? Eu não posso,
Disseco as cores de antes vívidas
Nessas estilhas de minhas prumadas,
Desde quando renasciam primaveras
Sem morrer a espera pelo outro,
De encontro ao sonho desfeito cinzas
Junto aos tocos deixados queimar
Suas dores minhas, nesse estorvo.
Entre o ouro e a as cinzas
Entre o ouro e a cinza das horas findas
Há uma meninice para ser brindada todos os dias
Com o louvor aos meninos e respeito à dor dos velhos
Aqui carcomidos seres que se prestaram ao soldo
Das horas trabalhadas escravas do tempo relógio,
Este mesmo que chama nas manhãs frias
E nas horas do almoço ou lanche ou vadias de dormir...
Ou, pior, para tomar os remédios
Para essas dores de hoje, de antes, de sempre,
Das mentes acusadas de sorver conhecimentos
E plantá-los nas mentes mais novas, frescas de saber,
Para depois impor-lhas saber mais e mais
Até este patamar de esquecer.
Esquecer as regras e até mesmo o nome delas,
A saber que vamos todos por esse mesmo talho
De mancar as pernas frouxas e a mente ruça...
O desacontecer das manhãs frias não é privilégio,
Antes incapacidade de levantar os ânimos
Outra vez pedidos vir socorrer os fracos
Para ao menos não se molhar sob cobertas,
Triste descoberta tardia de morrer aos poucos
Mas numa velocidade planejada sofrer
As agruras de penar as dores do corpo
Numa mente ainda não doentia. Triste?
Mais triste seria o contrário: a mente doentia
Cedo comandando um corpo sadio de vidas...
Comparativos
As coisas parecem difíceis...
Às vezes impossíveis?
Olho ao redor, nas escurezas
Vejo a luz
Nas pernas sem vida,
Nas mentes doídas,
Nos olhos apagados de ver...
As coisas pareciam difíceis
Ficaram possíveis
Outra vez.
O professor vazio
O inexistido existe...
Está nas coisas vazias dos dias
Acabados de pôr-se.
Depois disso, sob a lua passeia
Ele com seu cão
A caminho do exterior
Para onde levará a sua força
De inexistir sendo.
Arredes
Por algum cínico aparte
A parte visível dos consortes
Se expõe e manipula a opinião
De outra, mais frágil.
São segundos de indecisão
E a vida muda, mas sua mudez
Denota o interesse roubado
À razão.
Destarte, o que prega
O braço forte equilibrado
Pode desequilibrar-se
Na outra.
Calada, mitigada pelo cisma
Levanta os olhos e sabe-se
Por algum cínico aparte,
Fragilizado
Minaretes
As torres dos minaretes
São lembradas nesta janela,
Nas flores apontando o teto
Do jardim de inverno,
Faz-me uma comparação útil
Com construções medievais...
Pode ser meu olhar viçado,
Mas essas flores trazem vida
Nos olhares e paz novidada
Nas conversas à mesa,
Amenizadas pelo vermelho
Cheiroso das flores
Espiando da janela, livres
Mais que nós, mastigados,
Ainda apreendidos na idéia
De penar a sobrevivência
Dos humores.
Em torno
Fiquemos juntos,
Que a noite é fria,
De ventos e interesses.
Demo-nos as mãos
Que as almas se unirão
Outra vez...
É preciso racionar os gestos,
Para que não pereça na demora.
Nos odiamos agora, neste momento,
Em que a raiva sobe às ofensas
E põe em risco a beleza
De conviver...
Fiquemos juntos,
Que juntos nos defenderemos
Dessas feras e suas ferezas
Humanas. Assim poderemos
Ceder à vontade, outra vez
Deixada sumir na mágoa...
Fiquemos aqui,
Que lá fora o vento
E a estranheza
Fazem de nós reféns
Das vontades
Alheias.
Incursão
No mesmo cobertor relvado
No alto das falésias beira mar,
Protegidos de ondas embaixo,
Uma voz levanta ameaçadora
Com palmas de mãos freando
O que seria a voz desse povo.
Quem vem lá doutro mundo
Dizer regras de sorver a fé?
No relvado pespegado agora
Afoitamente mãos mostram,
Não um gesto de boa vontade,
Uma ordem! Quem dirá não?
Se todas as armas são calosas
Palmas pacíficas desabituadas?
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