segunda-feira, 5 de outubro de 2015



Prescrição


Dá-me a amizade por razão
De ser sorriso o choro ocasião.
Dá-me a paz de ser teu irmão
Pela união humana respirada.
Dou-te a saudade por história
Nessa rachadura da memória.
Em sendo capaz de Tolerá-la
Dá-me essa visão de rastros
Desfeitos por nossos passos,
E seremos amigos por opção,
Desses que dizem verdades
Que calam fatos consumados.
Dá-me então a fé no próximo,
Que pode estar necessitado
De crédito à mentira rasa...
Que, se mentiu o fez para si,
A quem mais afeta a palavra?
Dou-te pois essa amizade
Que por ser verdade aceita
Cada baliza, mesmo desfeita.
Dá-me esse bem por receita:
Silêncio. Que a vida faz falta
Ao que não viveu sua parte.

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domingo, 4 de outubro de 2015



O preço da liberdade


Não pagar, nem posso,
O preço de libertar-me
Das fusões passadas.
Não penso gratuidade...
Mas o preço desfaz-se
Em enlevados sonhos...

Liberdade livre no pensar,
Mais que possas imaginar...
Sublime, casta, benévola,
A liberdade como palavra
Tem-se a compromissar
Status, vírus, maquinações...

Uns se libertam quando
Não sentem dor, saudade,
Fusões passadas a limpo,
Falta de outros convençais...
Mas aí, o liberto está morto,
Alguém que ficou pra trás.

A válida liberdade é gratuita!
A tudo que o sonhar evita
Além desses muros retráteis
Espelho envilece convívios,
Entre o hoje e o que passou
O sino da liberdade soou.



Esperançados


Estou...
Estamos todos,
Atordoados de viver
Equilibrados na altura
Desse penhasco,
Olho para baixo,
Vejo-me no fundo
Do espelho d’água
Respirando medos...

Estou?
Estamos todos aqui,
Olhando para baixo,
Este espelho d’água
Mergulha entre pedras
E desfaz-se espuma...
Mas continua, calmo,
Sua direção ao incerto
Mar.





O caos


A chuva de granizo passou,
Cortou brotos da amendoeira,
Furou telhados e vidros,
Fez um estrago encardido
Nas mãos lavradas de hoje...
O caos impôs-se ao olhar
Desolado do morador,
A pilha de lenha encharcou,
O cão, amarrado, quedou-se.
A chuva do caos já se foi,
Deixando um rastro de medo
Entre cães e homens meninos
E uma infinidade de seixos...
O caos apenas medrou-se
À força do velho avô tinhoso,
Que de pá e rastelo pôs-se
A limpar as folhas caídas
E as lágrimas pela vida.









Ilhados

As ilhas humanas perdoam
Os navegantes que passam
Remando para longe da costa...
As ilhas humanas se sentem
Abandonadas pelos barcos
Que passam ao longe...
Ao longe se despedaçam.
As ilhas humanas sentem-se
Cercadas por amarguras
Por todos os lados...
Mares bravios,
Pedras pontiagudas,
E uma memória dos fatos
Passados a sua volta...
As ilhas humanas se fecham
Em suas pedidas e valem
O ouro de suas petitas...
Por humanas não esquecem
Os perturbadores da paz
E vivem a murmurar queixas
De seus abrolhos... Filhos,
Netos, esposos falhos...
As ilhas humanas, falhas
Tectônicas em bases frágeis,
E se comprazem.
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sábado, 3 de outubro de 2015



Lembranças


De quando a rua
Era nosso parquinho
Ao quando a rua
É-nos proibida
Por escaninhos...
De quando as matinês
Eram seriadas ao tempo
Em que whatsapps
Filmam mulher pelada...
De quando a poesia
Fazia versos ao tempo
Inverso de fazer poesia...
Quanto possa ser saudade
Saudada entre as novidades,
Uma parceria de contrários,
Os revividos
Doutra hora sabem:
O tempo é contratempo...
Enevoa-se na madrugada
Antes que se enodoe
A ideia de que tudo
Seja nada.

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sexta-feira, 2 de outubro de 2015



Lufada


Construções erguidas
Em pedra e cimento,
Concreto que o vento
Desfaz em vidas...









Vírus


Assim se conforma a forma
Ação da prosa dito verso,
Que continua incerto.











Às vezes esmurramos
Um papel vazio
Traçando coisas de antanho...












A pele fria da cobra
Enoja? Excita?
- Entoja.









Todos os caminhos...
          Levam a Roma?


A estrada,
Que não vai a Roma,
Passeia nos pensamentos...
Trilhas de pedras polidas
Por cascos de cavalos
Desenham às vezes das idas
Que não chegaram a lugar algum
E voltam assustados com o cansaço
Dos remos e das encilhas...
Os cavalos cederam ao cansaço,
As rodas alisaram nas trilhas
E a estrada, que não vai a Roma,
Persiste intocável estria.













A vida pela metade


Metade de conveniências...
Metade das convivências...
Metade de cada metade
Partida em partes metades...

A ferocidade se explica
Na mansidão de antes
O que depressa te agita...
A vida levada a metade.

A consequência do nada
Explicado sem explicativa,
A não ser o dar de ombros:

As penas por ser vivida...
Todas as tardes a viagem
Com passagem só de ida.










Extrema unção


É mais doído, às vezes,
A ausência dos presentes
Que a presença de ausentes...
A morte, aceita como fato,
Traz na foto a continuidade
Próxima da realidade,
Discutida válida ou fingida...
A ausência aí se torna limitada
Ao momento da voz sumir
Entre suspiros e gemidos...
E a lembrança sobre a cômoda,
Um chapéu, uma bolsa,
Um sinete esquecido entre
As necessidades válidas
E as desnecessidades lustras
De algumas luvas desvestidas
Para um último brinde...
À verdade destituída...
Que o valha.

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