domingo, 8 de maio de 2016

Partimentos
Dedico à todas as mães
Transformar as coisas duras
Em carinho... Arte de mães...
Assim seremos filhos dessas mães
Medindo por espelho sua força,
A força de chorar sorrindo
Frente a cada filho partidor...
Que perda é o contínuo reviver
As horas de amamentar e de sofrer
As idas pela porta que se fecha
À volta desse ser viajador,
Que parte e se reparte
Em tantas outras repartidas
No correr dos dias de ausência...
E, quando volta, às vezes se ausenta
Na presença aberta à própria porta,
Aquela que fechou-se quando
Esse mesmo filho foi embora...
E volta, mas não volta por completo,
Volta sonhando novos voos
Além do pensamento por inteiro,
O de sondar a dor do partimento
Desde o seu partir primeiro.
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Perse e Clube de Autores
Em dissonância com as alegrias desse dia,
Peço desculpas, mas preciso lembrar certos
Filhos de seu esquecimento às genitoras:
Flores para as marias...
Flores para as marias...
As cansadas do dia a ida,
As feridas por suas crias,
As deixadas na periferia...
Flores para as marias...
As guerreiras desabrigadas,
As matronas esfomeadas
Das vidas desvividas...
Flores para essas marias...
Que passam noites em claro,
Na espera da inúbil volta
Dos que só tiveram idas,
Das que dormem agarradas
Às velhas fotografias...
Das que comem os restos
De suas comidas...
Marias de todas as raças,
Marias de todas as vidas,
Das abastadas à fodidas.
Flores para as marias...
Nas campas desassistidas
Pelos que deram à vida!
Cadinhos
Cadinhos de quase nadas...
A mãe deixada prostrar-se em vida,
E na campa inominada, esquecida....
Conheço suas crias, mal criadas?
Mal vividas... Cadinhos de nadas,
Por terem sido geradas e
Dela terem se partido...
O escuro, o fluxo das mágoas,
Como a seiva do pinheiro velho
Posta a queimar à distância...
-Frutos de candeeiros! Sabem bem
Onde a fala os alcança... Cadinhos
Destilados desse ferro que ferroa,
Sucos malhados por primeiro...
Embebidos em suas emanações
Ao seu pendor por dinheiros...
Sei bem que sabem vocês...
A quem aponto o dedo.
Sois vós que vejo em primeiro
Saudando a mãe, em pecado!
Deixando a mãe doutro lado
Do muro estreso em erros

sábado, 7 de maio de 2016

Os frutos desta árvore


A árvore mãe frutifica,
Semeada de carinhos e consertos
Invade o que te é de direito
Ouvir os ranços da adolescência
Desse jeito... Com seu jeito.
Os frutos dessa árvore
Arvorificam...
Passeiam pelas sombras
Das galhadas
Procurando o sol da maturidade
Entre tropeços d’mágoa.
Os frutos dessa árvore
Intensificam
Sua jornada pra além da sombra
Dessa galhada protetora,
À procura de seu sol,
Sua aspereza
Ante as guerras que enfrentar,
Seja o que seja
É o fruto da mesma árvore
Benfazeja
Empunhando ao desejo de sê-la
Entre as sombras e as chuvas
Desses sóis postos na mesa.
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 Perse e Clube de Autores

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Enquanto desviam dinheiros...
do livro prismas

As crianças morrem
Enquanto desviam dinheiros...
As mães choramingam
Enquanto desviam dinheiros...
Os pais suam frio
Enquanto desviam dinheiros...
As escolas fecham
Enquanto desviam dinheiros...
As comportas esvaziam
Enquanto desviam dinheiros...
Os idosos morrem de frio
Enquanto desviam dinheiros...
Os famintos se mordem
Enquanto desviam dinheiros...
As feras trucidam
Enquanto desviam dinheiros...
As outras feras revidam
Enquanto desviam dinheiros...
E, pasmo, o presidente diz
Não saber das coisas
Enquanto desviam dinheiros...
O país estafa, suspira, morre
Enquanto desviam dinheiros.



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quinta-feira, 5 de maio de 2016





A poesia,
Quando acaba,
Se acaba...
Nada que
Se possa fazer
Para remediar
Um verso
Que se nega ser.
O lápis não escreve
O que deveria
Descrever.
A mente esquece
O que não deveria
Esquecer...
Daí... Nada a se fazer,
Senão mudar
De assunto
Outra vez...










Permeio a mão que veio,
No veio de meu permeio,
Das quantas vezes o meio
Seria a paz merecida vero,
A mesma que ainda espero
Entre as palmadas do veio.
Permeio a ação desse meio
De onde posso dever-me
À ação de mais esteio...
Do qual não espero,
Enleio.

















Esses ossos velhos
Do pinheiro apodrecido
Lembram
Meus tempos vividos...
Entranhadamente parecidos,
Como fôssemos do mesmo veio,
Este,
Que produziu pinhas e espinhas
E não se sabe vencido
Pelas intempéries da lida...
Esses ossos velhos,
Desse cara esmaecido,
Lembram
O velho pinheiro e suas pinhas,
E meus espinhos...
E nossas vidas.











A primeira impressão


A primeira impressão,
A que ficou do olhar,
Do maneio,
Do piscar ao vento leio
Intenções atabalhoadas
E um primeiro gelo
Na espinha espinhada...
A primeira impressão,
A que me veio, trouxe
Uma segunda olhada,
A que prendeu-me
A esse olhar nevoado
Entre esgueiro
E afanado veio...













A deseducação como método


Impensável granjear valores
Sob a tutela mal ajambrada
De semialfabetizar,
Numa régua passada por passar,
Saber por dessaber...
Indo à carga...
Abreviando palavras,
Na troca por símbolos erráticos
Em gestos insensíveis ao tato,
Em inaudíveis recados de sons,
Extrapolados
Nos pensares sem morada.
Essa palavrosa livre
Na malsucedida lavra,
Tantas vezes ditas as semânticas
Incitadas a dizer valores,
Sua verve grafitada nesses gestos,
Lamentando a formação de estilos
Mortos de whatsappadas...
Lidas por manadas.

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 Perse e Clube de Autores

terça-feira, 3 de maio de 2016

Alheados
Passam operários, suas pressas
De apressarem-se derrotados...
Mas, em verdade, tudo passa,
Como o som que se apaga
Na oportunidade de se calarem
Esses meninos de whatsapps...
Que te parece, Dona Maria?
Todos alheados ao tempo?
Parece alheiam-se aos fatos:
Passam carros com sons altos...
Passam bancários, suas gravatas,
Em plena praia de maré alta...
Gritos de febre, sinais de farsa...
Alheios ao tempo estamos todos
Nesse balburdio de querer viver
Num só dia toda uma vida...
Inda não feita por merecer.
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domingo, 1 de maio de 2016

Cara Senhora:
dedico a todos que a conheceram
De onde estiveres agora,
Sinto que estás aqui!
Sinto que não te perdi
Nas andanças que previra...
Sinto que não te ausentaste
Por teres morrido...
Sinto que presencias os atos
Que aprendemos de ti...
Sinto que somos abençoados,
Pelo que somos-te gratos!
Elegante Senhora, te abraço
E peço-te a benção outra vez,
Enlevado na lembrança
Do que fizestes por nós,
Do que desses de vós
Ao nosso discernimento.
Cara Senhora, obrigado!
Que mais dizer a uma Senhora
Tão cara a todos que conviveram
Com tua sabedoria e ética
E religiosidade de verdade?
O que não dizer: Adeus.
O que esperar: Tua benção
Outra vez.
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Perse e Clube de Autores
O olhar da mãe


A impressão
É de que tudo fora belo...
O olhar tranquilo,
As bochechas vermelhas,
As mãos calejadas,
A razão... Sempre a razão
No lugar da indignação.
A resposta exata
À pergunta mal formulada.
A questão das horas vividas,
Dos sonhos vencidos,
Das águas passadas,
Das mágoas esquecidas...
A impressão
De que tudo fora sereno...
As madrugadas mal dormidas,
Os partos desacompanhados...
A vida... Sempre a vida,
Acima das irrelevâncias
Dos sonhares parcos
De lembranças.
O que mais me lembra
Minha mãe
Era a sinceridade dos atos
E o silêncio ante boatos...
A vívida sabedoria de anos
Tabulando as crias afilhadas...
Um olhar de orgulho
A cada obstáculo vencido,
A cada caminho acertado...
A cada memento vivido.
Na minha mãe vejo outras mães,
Carregando berços
Pela vida afora...
Pelos desassossegos...
Pelas vitórias.
Pelo aconchego das horas...
Pelas escolhas, pelas encolhas,
Pela fé na mão que se dá
Ao ser que vem à luz,
E passa.
Senhoras... Elegantes Senhoras,
Eu vos pranteio!
Pelo que me veio a dar
Vossa atenção de se dar
E ser esteio.

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