domingo, 15 de outubro de 2017

Endividário


Chegamos
Ao entardecer de nossas vidas…
Talvez com lamúrias mal vividas,
Ou, se por sorte, com saudades…
Chegamos
Ao que alguns dizem: Tarde!
Eu continuo a caminhar…
Resfolegado,
Mas contente de ter chegado.
Hoje, nesse dia bem vivido,
Concluo pelo cálculo do matemático
Que temos um crédito de 86.400 segundos por dia vivido. 
Hoje gastei-os todos bem gastados!
E posso dizer dos momentos que tive
Que foram alternados de murmúrios,
Uns, por pesados, descartei-os,
Outros, por saudáveis,
É o que trago.

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Perse e Clube de Autores

quinta-feira, 12 de outubro de 2017


O dia das crianças
Deveria de ser o dia
De todas as crianças
Se senhoras e senhorias
Lhes dessem importância…
Mas vejo na esquina
A criança esmolando,
Vejo na notícia
A criança apanhando
À vista das cuidadoras…
Fatos perturbadores
Por tal inconsciência,
O menino entregue ao preso,
O outro torturado
Pelos dois adolescentes,
A menina jogada da janela…
Sob olhares complacentes
No dia que seria delas!
Que esperar dessas mazelas
Para o dia em que a criança

Possa ser criança?

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Para ver sob céus da noite


O tempo não cabe no tempo.
Perdidos nesse tempo
Abrem-se janelas para os ontens,
Redesenhados como fantasiosos…
- Felizes?  Talvez…
Numa noite dessas volto
Ao tempo não vivido antes
Sob os céus das noites.
Por falta de tempo perdi-me…
Corri para o dia seguinte
Sem anoitecer pensamentos.












Lascas


Continuo a descrever
O papel das páginas,
Sabendo desnecessário
Arguir da memória,
Que às vezes falha.
Como papel é página
Me folha cada alvorada
Enquanto árvore, cansada
De segurar o vento,
Desfeita em lascas…
















Vivo há sete décadas
Na mesma cidade
Mas sinto saudade
Da minha cidade…









Cada palavra é única,
Mesmo que repetida,
Por estar sempre
Em outro contexto…









Hoje a paciência não veio,
A quem eu posso
Mandar buscar?










Todo canto
É expressão.
Mesmo o mudo…










Chove
Sempre uma chuva
Mansa…
Hoje
O céu embrabeceu,
Chove pedras!
A derribar
Folhas e telhados
Sobre gramas
E consciências.
















Escondo-me das vontades,
A mais férrea, chocolates.
O corpo pede água… Muita…
A desopilar renitências.








Desisto da conversa (a)fiada  
E volto a escreve-las. Poemas?
Solilóquios monossilábicos,
Oblíquos às verdades…







Independências


A vida
Tem princípio e fim,
Difícil organizar o meio…
Enquanto a passarinha
Recolhe gravetos
E organiza seu ninho,
A cadela faz sua cama
Antes de parir filhotes…
Só o humano não sabe
A que veio?
















Faz toda diferença
Um pé de coelho
E um pé de cabra:
A sorte e a força.









Em tempos de cacos
Perdidos na memória…
Quando a saudade
Vai-se embora…






Diafaneidades


Caminho pelas estrelas…
Alguém diz que enlouqueci,
Mas eu posso, sou diáfano…
D’onde vejo o corpo, o meu!
Estendido a sono solto
Sobre um lençol lívido,
Aí me desfaço em tantos…
Voar ou permanecer,
Dormir pensamentos
Nesse alvoroço de ir e vir,
Sem poder voltar
Ao calabouço a que me prendi
Quando em moço aprendiz.
Como caminhar o voo às estrelas
Sem cair em mim, nesse fosso
De sumir para dentro
E não me atrever ir além
Desses egos?





Indevidamente feito


Talvez nos tornemos
Honestos
Nesse momento de nos dizer
Desonestos…
Falcatruas à parte,
Cada logro que executamos
Teve um motivo muletando
O que seria amoral,
Mesmo sendo legal…
Nessa hora todo ser é humano,
No pecar e arrepender-se,
Mas humanamente impossível
Prometer-se não mais fazer
O indevidamente feito
Vício.

CONVIDO-OS







Desacertos


Naquela idade,
Em que tudo era verdadeiro,
Inventamos as verdades
Ao menti-las em desacerto.
Amadurecemos
E nos tornamos incólumes
À dor do arrependimento.
Naquela idade,
Quando éramos coragem
De não prever o perigo
De não sê-lo.
Agora a comunhão de valores
Assusta o conceito
De revê-los.












Perdidos,
Viemos de algum lugar…
Quem sabe possamos
Voltar?








A vida se resolve nisso
De respirar profundo?
A vida não se resolve nisso
Pois não conserta o mundo!










O ato de conservar-se vivo
É complexo, disléxico?
Dialecto? Anoréxico?
Pior se apoplético!










Tinha alguém de meu lado
Cantarolando uma valsa.
Murcho com sanfona e pandeiro
Nesse baile de terreiro…








Tudo que pode ser
Poderia ter sido…
Se a idade fosse
Pelo merecido.



















Pandemônios


Às vezes
O barulho interior
É maior que o exterior.
O grito da consciência?
O remorso da inconsciência?
A guerra entre neurônios?
Às vezes a cabeça pesa
Mais que as pernas cansadas…
As mãos calejadas,
A visão cegada

Pela dor.

Nacos


Cato
Na poesia
Nacos
De respostas.
Aceno
Ao fraco
Sustentáculo,
Quase morto,
Rebates…
Quase desanimo
Quando tudo
Entorta,
Mas sigo em frente,
O tempo
Não tem volta.
Volto
Ao tema lúdico
Em nacos
Do que fui
E tento ser
Outra vez
Minha luz.




Noz que se perdeu
No bico da gaivota,
Gaviona que viola
A volta ao que
Não foi, espera…
Talvez em menino
Troncho, tímido,
Querendo-me feliz.
Nacos de memórias
De entreveros
Perdidos na resposta:
- Quando fomos vis?
Quando nos tornamos
Mortos
Nessa ilusória luz,
Que nos derrota.
A um tempo de carriolas,
Carruagens desenhadas
De ilusões…







Na ocasião,
De cegos pensados
Nobres em nossos
Pobres ideários…
Ou fomos mesmo
Reais, embora otários?
Cato dessas fezes
Deixadas nas trilhas
Algo que inda brilha,
Ouro do tolo
Menino que cresceu
Mas não se fez homem,
Fez-se apenas
Mais culpado
Inconscientemente,
De não ter passado,
Apenas um naco
De futuro áspero
Num presente fraco.







Oras!
Que me vale
A experiência
Se doeu tanto
E cicatriza apenas
As feridas velhas,
Dando lugar
A outras feridas?
Tanto se me faz
Se o dia acaba,
Somos o restado
Das memórias
Fracas
De um tempo
Que não volta,
Mesmo procurado,
Mas se eterniza
No campo das batalhas
Revividas,
Tendo por vencidas.






Desses nacos
De momentos
O que se tornou vida?
Talvez algo
Que não deixou
Ferida…
Não por não machucado,
Por assimilado
Como fatídico
Destino
Desse desgraçado
Que tentou,
Sem ser ouvido.
Apenas o grito do eco
Como resposta
Ao dito por não dito
Ficou no sangramento
De cada volta
Aluída ao vento.







O destino
Do que foi,
Não por ter ido,
Volta a fazer
Sentido.
Quem sabe agora,
Vendo-se no espelho,
Vê-se sem rugas
Esse fedelho,
Entre velhas mortes
E novos nascimentos
A paz não conseguida
Em tantos relentos
Que tomou o tempo,
Mais que a vida,
Na tomada febre
Onde espera alívio.
Ponto final é breve
Exclamação perdida
Nas interrogações
Sem vírgulas.


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Entre salmos
Entre o grito angustiante
Desse chão desértico
E a voz de um deus
Que parece sempre certo
Levanta-se um NÃO!
Em efervescente dúvida:
- O que existe, além dessa agonia,
A libertar a nostalgia prenhe?
Pode seja alguém vindo 
De há dez mil anos…
Ou alguém nascendo agora,
Por engano…
Mas esse alguém gritante
Inda falará em paz,
Essa paz desiludida antes,
Posta na égide do dia
Que virá por hoje 
Optar pela sangria 
Dos valores pétreos
Da geração que morre
Sem voltar atrás.
Quisera a dúvida ser apenas esta,
Mas corre sangue ainda em faces mortas,
Deixadas ficar pelas derrotas…
Alguém gemendo entre moribundos
Desse massacre em nome de religiões,
Mesmo com seus membros decepados
Ferve de fé sua máxima dor…
Alguém a ensinar como pode
Um sarcófago deixado para trás
Levantar-se na penumbra de sua fé
A perscrutar as novas teorias…
E ser capaz?
Porque, enfim, a voz que sussurrava
De um túmulo milenar acorda,
Põe em dúvida a fé cega dos demais
E se levanta… Sim, levanta-se a alma
Desse antigo apóstolo
E se diz incrédulo desse monoteísmo 
Que sofre fomes e sedento aceita
Como destino!
Cada palavra é uma única palavra,
O que faz todo sentido para um
Ao outro não diz nada…
Pode seja a vida uma passagem
Como pode ser o fim, finalmente,
Entre outras galáxias,
E de repente morre-se a carne
Apodrecida que seria vida,
E some-se a chamada alma,
Por desprovida…
Quem sabe… Oh, quem saberá
O que se passa sob a terra acima
Cobrindo a sete palmos 
A chamada dor da vida?!
Estariam certos os incrédulos?
A dúvida que esse deus duvida
Pode ser a verdade definitiva?
O chão que nos protege
Seria o céu esperado antes,
Ou apenas somos passantes
Como o foram os dinossauros,
E sabe-se lá quantos?
Mas deve haver sim uma alma
Libertando-se deste corpo inerme
A cada vez que morre
Um coração cansado
Ou um fígado destroçado
Pelos vermes…
Ah, que bom seria a certeza
Dessa hora, a finda hora
De respirar convulso 
E desligar-se mesmo os tubos
E a esfera a esfarelar-se nisso
Que o doutor inspira e densa:
- Foi-se a vida.
Mas que vida se foi agora?
A mesma que seria tua espera?
É… Contigo, amigo,
Que procuras tal resposta,
Chegada tua hora
De uma dor profunda,
Saber se existe mesmo
Nova aurora
Ou se findou-se aquela fé
No mundo…
O que fazer do feto nascituro
Se ele vem morto,
Ou se vive penitências?
Ou que fazer desse senhor
Que afoga-se em mágoas
Mas inda respira
Sua última batalha
De um guerra 
Que já foi perdida?
Entre o grito angustiante
Desse chão desértico
E a voz de um deus
Que parece sempre certo
O homo sapiens caminha ainda
Com machadinha e procura
O calor do fogo para sua intensa
Dor ao gelo que avizinha…
Faz tempo que morremos disso,
Das dores nesses peitos duros,
Das fomes nessas mentes vis…
Por tempos imemoriais passamos
Das dores físicas às dores morais,
Arrependidos de feitos pobres 
Entre os feitos amorais…
Estávamos nus sob esse gelo,
Vestimo-nos pela sobrevida
Ou pelo pejo?
Somos o resultado evolutivo
Ou somos mesmo frutos
Desse barro para aonde 
Retornamos, idos?
Pois é, meu santo, 
Quanto me proteges
Das dores suportadas pela fé?
E aos ateus, nobres senhores
De sua gnômica palavra
Entre cordeiros que não dizem nada
Quando sacrificados ao chão 
Perdido entre mágoas?
E o santo a que santo paga?
Se somos devedores de pecados
Por que então absolutos fardos?
Se esta força de não crer em nada
Pode ser a palavra que salva
Quantos inquiridos foram salvos
Na inquisição forçada?
Pois é, meu agnóstico pecador,
Como te proteges
Dessa dor?
Se a vida acaba,
E ao acabar perdoa mágoas,
Pois vê-se a quietude 
Desses defuntos deixados sós,
Que o tempo comerá suas carnes
E deixará os ossos a rir de nós…
Nós, que tememos a morte física
E não sabemos aceitar 
A tísica proposta de voltar…
E, se volta, pode ser a solução
Mais lógica, onde estarão o idos
D’outras gerações, se somos
Muitos mais a cada nascedouro?
A cada geração povoamos vilas
Que se transformam em metrópoles
A nos suportar, se tantos…
Tantos se revoltam
Por não ter esperança monetária,
Que aos outros encanta…
Por fim, o que somos nós,
De tantas faces perdulárias,
Se gastamos o que nos faz 
Endividados por gerações,
Futuras ou passadas?
Somos a soma das espécies?
A fina flor do que nem floresce
Entre daninhas a nos reflorestar?
A dúvida faz parte de nós,
Que dogmas mal explicam
E a ciência tenta explicar.
Somos o grito angustiante
Desse chão desértico
E a voz de um deus
Que parece sempre certo…
Ao apregoar.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017



Quisera
Dividir a culpa
Em heterônimos,
Mas o tom da fala
Entrega, dividido
Em outras vozes…
Que dó me invade
Ver o cão pestoso
Se coçar até sangrar.
Que dó me atinge
A parte humanidade
Que espera escondida
Em minhas entranhas
E solta-se em lágrimas
Invisíveis, que doem
Por ter o tempo
Um tempo de partida
Sem despedida.





Pergaminhos

O segredo
É lástima da mente
Acuada… Música
Desejando a liberdade!
Sussurrando advérbios
Para seu consolo,
Posando de razão
Sobre impropérios,
Buscando explicação
Para velhos conceitos,
Matados ao respeito
Das frívolas palavras.
O pergaminho traz de volta
A soletração das mágoas,
Teorias desencontradas
De um tempo eivado
De misérias…
O segredo se abre em lascas
Refazendo seculares
Teorias enfáticas.
A música se abre aos ouvidos,
Dessegreda fatos
Revividos…
Horas extras


Feita,
A hora extra estafa o homem…
No meio do dia extra, ordinário,
Desse homem extra, espoliado,
Do tempo extra, ditado,
Do sexo esquecido, sensorial,
Flácidos tendões chateados…
Horas extras de horários,
De horácios, de mesários…
Cansaço… Cansaços…
Vinte por cento homem,
Oitenta por cento macho.













Revides


O som que responde
Sem que perguntado…
A poesia é o eco… Ou o oco…
A palavra é tudo… Ou pouco…
A menção ao despropósito
Dessas guerras entre moços,
Entre facções e crianças
Que levam o troco!
O som que responde
Sem pergunta…
É pouco.














Decompostos


Devolve-me
O que não é meu!
De tudo o que se perdeu
Na bruma uns cacos,
Apenas de lembranças,
Surgem na praia enseada,
O resto levou a maré
Aos outros lados do mundo…
De viajados os homens
Se misturam à paisagem.
Devolve-me o que não é meu
Antes que estrague…













Soltura


Quando vejo
Esses meninos, soltos,
Penso num tempo esquivo
D’onde se penava
Para sair de casa,
Tempo das dez da noite…
Talvez fosse melhor
Ter-se soltado esses
Sonhadores da época.
Quando vejo
A soltura d’hoje,
Penso se seria bom
Ter sido assim no antes,
Com o que houve…














Se a voz tivesse
A força do pensamento
O sussurro seria um grito
Demente.










Tenho sido plácido?
Tenho revivido taciturnos ermos
Nesses tempos ácidos…








Graça


É preciso que haja
A bendição das coisas boas
Em confronto com as más,
Tão em evidência d’gora…
É preciso, e sempre o será,
Que se abençoe a vida,
A que está por vir
E aquela que já se vai…
E por preciso será dizer
Ao probo seu valor,
Ao fraco seu aconselho…
Que o tempo é professor,
E somos todos bons e belos
E ao tempo somos feios
Aos nossos defeitos
Cultivados ao esmo
Que se faz o leito
Do cansado lavor
Do feito.






O campo santo


O que seria um campo santo,
Onde enterramos nossos ossos
E a dúvida de nossos feitos?
O seria santo pela mudez da morte?
Ou pela aquietação das derrotas?
Campo de todos, bons e maus,
Eficientes e deficientes… Findos,
Todos seremos santos pela hora?
O campo santo é para os santos,
Que assim se fazem pelo silêncio,
Enfim, conseguido em termo?
Ao extremo o campo, se santo,
Parecerá ameno àquele que
Se vai em calma ou desespero…
Mas ficará o medo de, em sendo,
Perdoe o que errou e o que,
Entre as fagulhas de incêndio
Salvou-se, não por santidade,
Por absoluta falência,
Cedo ou tarde.





Escocho


Estamos a ver
O desencanto das palavras…
O que pareceria óbvio,
Chega tarde.
O que antes fora ignóbil,
Torna-se verdade!
Estamos a ver
Que a luminária se apaga
Entre gracejos de escócio,
Tornando o feio em lácio,
O abjeto em plácido…
O ignaro em erro crasso.
Por que então a farsa,
Se tornou-se possível
A mesma graça?










Despedaços


O dia termina
Interminável,
A placenta
Se abre em fetos…
A voz nascida
É um gemido,
Apenas os olhos
Perscrutam
O ambiente
Em volta,
E o dia, enfim,
Termina,
Despedaçado.












Em rugas


O fanatismo
É indiferente ao fato,
À razão,
Ao descalabro
De não ver o ódio
Que o tempo mostra
Obvio…






















Mais que o caboclo,
Analfabeto funcional,
Vejo esse douto
Analfabeto disfuncional.










Se fizeste mais por ti
Que o necessário,
Deixaste de existir no prosaico,
Vivencialmente a cada fato.






Nos arrabaldes da mente


Os pensares flutuam
Entre as vivências
E os sonhos… Por vezes
Mais forte que isso
A resolução das paragens
Dos ontens entre saudades,
Dos hojes sendo verdades…
Amanhãs incandescentes
Nos arrabaldes da mente.
Na força do irrealizado
Entre sonhos e desolhados,
Apenas pelo passado
A se intrometer
No presente.