sexta-feira, 1 de julho de 2016

Por esse mundo afora...
Desabafo: à anarquia dos mandatários
Há uma extrema diversidade
Entre os fatos difíceis
E os fáceis...
Por esse mundo em que
Os contendores nascem do nada,
Um pra ser escudo,
Outro, espada.
Por esse mundo
Há um cão bravo, que muito late,
Mas o que mais assusta
É o mudo espionar da cobra.
Por esse mundo há o conto
E o fato,
Onde a mente se desenrola
Em atos,
E o mentiroso a granjear vitórias
Como fora o forte
Em sendo o fraco.
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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Tardes na lagoa


Essa lagoa no cio
Gerando girinos à beira
Pressiona-me a maneira
De ser a mãe desses tantos
Peixes, homens, pirilampos...
Essa lagoa inda prenhe
Aparecida em aluviões
Passeia pelas ravinas
Acordando bastiães...
Essa lagoa singela
No silêncio desagua nela
A força da multiplicação
De peixes, pedras, aflora,
Em suas manhãs de inverno,
A florezinha amarela...
Essa lagoa... É a terra.

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segunda-feira, 27 de junho de 2016


Se eu faltar a mim,
Não posso pedir que
Não me faltem os outros...









A vez primeira
Em que me soube solto
Tropecei nas ideias mornas
De correr um mundo
Que não me dava cordas











Remissão


Remi todos fatos mornos,
As idas e voltas ao fracasso
Nesse brinquedo sem rola
De não chegar em bagaço...

Cumpri todas as promessas,
As de ontem, agora ofertas,
A salivar as dadas vontades
À gula para com as vaidades...

Pensei-me ator de um palco
Onde comprei as verdades
Entre mirras e cadafalsos

Dos tempos em que perdi
A procurar suster-me forte
Por essas desrazões daqui.








Solário


Qual a palavra certa
Para o amigo incerto?
Vindo de longa agonia
De feras devorando crias...
De mãos que não abanam
Saudades das outras mãos,
De pés longínquos
Num passado caminhado
Com tanta dor?
Que palavra ameniza
O martírio de não saber
O princípio do querer-se
Ante o querer outros?
Qual a palavra seria brisa
Nesse escaldante solário
De fúrias e campanários?









Debaixo da neve


Debaixo de suas raízes
O campo embranquece
À espera das folhas verdes
Voltarem da invernada...
A grama empalidecida
Afasta desse crestado,
Grandes cabeças
Adormecem cada roçado...
Profundas raízes voltam
Refletidas na aragem
Do tempo bom ido embora...
O que o inseto reclama?
O verde fugido daqui
Para além do prevenido
Suster-se em nova grama








Luzidios


No branco luzidio da tarde
A recomprar meu sossego
Sob esse sol vermelhado,
Prometido, que não veio...

A nuvem densa era branca,
Antes da fumaça espessa,
A vida em sendo mais fácil,
Antes que se desaconteça

Na madrugada profunda
Com esses rostos pálidos
Vingando o quebra cabeça...

A vida assim com que arde
Saber-se definhada linha
Entre o antes e o tarde.

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As pequenas coisas


A forma de dizer,
Das pequenas coisas,
Em versos brancos,
Evidenciando as escurezas
Escondidas, me apraz:
Do sentido ao sentimento,
Das flores murchas
Das ideias matadas,
Num ninho
Que se havia promissor,
E nada... Nada a acontecer
Nessa semeação macabra
De ordens e contraordens
Desenfreadas.









Manhã de frio


A madrugada entrega,
Profundamente lesa,
O sol raquítico às nuvens tensas...
Agora os rostos estão cobertos,
As faces avermelhadas acusam
O temor ao frio cortante vento
Do inverno chegando lento
Entre as planuras do alto,
E nesse relento de nadas...
Os anos pesam à consciência
Do sofrimento fabricado
Pela incompetência:
Um cabresto para dormir
Ante as portas fechadas.









Ao vagar...


Ao vagar pelos caminhos
O andarilho põe-se rei
Entre os escravos da razão
De ter, mais que ser.
Ao vagar pelas câmaras
O mandatário ilude-se
Sobre a supremacia do cargo,
Alçado ao desilude.
Ao vagar pelos dias
O promissor das alegrias
Põe-se leso à tristeza
Do faminto, solto nas ruelas,
Cantos escuros do templo
Onde rezam contendores
Das fartas promessas...
Ao vagar vergamos
À prece pelo insano
Turbado ser humano.








O improviso
É a alma do insucesso.
Diz-me um sábio
Em recesso.







O fim é sempre o começo.
Daqui parto para o amanhã
Sem preço, mas com apreço
Às coisas de ademã...



sábado, 25 de junho de 2016

Encontros
Do livro As cores do tempo

Hoje estou mais velho que meu pai
E ainda sonho com ele
Me dando umas moedas para o cinema,
Esperando-me na saída do exame
Para admissão ao exército,
Desacreditando em meus sonhos...
Fantasiados.
Estou mais velho que meu pai
E estranho os novatos me chamando
De senhor... eu menino, eu sonhador.
Meu medo é de quando eu chegar
Meu pai não estiver lá esperando
Por mim outra vez mais.



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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Formalidades
Do livro As cores do tempo

A palavra
Não me é difícil.
É-me difícil
Dar-lhe sentido:

Meu baú de saudades
É um armário cheio...
Das calças rotas
Aos conselhos.

Meu armário de memórias
Guarda suspensórios,
Guarda-pós das escolas
E sentimentos vários...

Meu baú inda guarda
Saudade das coisas frágeis,
Brinquedos lizados,
Na pouca idade.

A palavra difícil,
Gaguejada, mostra
O que ficou na idade,
Mística formalidade...


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quarta-feira, 22 de junho de 2016

Silêncios
Do livro As cores do tempo

Atiro aos leões
O verso desfeito em lágrimas.
Que querem que eu faça,
Sozinho?
Há de haver, ainda,
Poesia verdadeira
Nesta mentira
Ensaiada pronta.
Atiro às feras
A palavra atenuada.
Sei-me feroz agora,
Ante a palavra que se cala
E a que é calada!


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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Excertos do poema “sente-se” de Bertolt Brecht:
Está sentado?
Encoste-se na cadeira, tranquilo?
É importante que escute com atenção.
Tenho algo a dizer-lhe 
Que vai interessa-lo:
-Você é um idiota.
Está realmente a escutar-me? Repito:
--Você é um idiota!
Não diga nada, não venha com evasivas,
Você é um idiota e ponto final.
...
De resto, isso não é grave,
É assim que poderá chegar aos 80 anos.
Como negociante é uma vantagem...
Na política então, não há o que pague,
Na qualidade de idiota
não precisa se preocupar com mais nada...
Formidável, não acha?
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Obstativo
Do livro As cores do tempo
Como ninguém sabe
O que seremos
Depois da morte...
Podemos entabular
Nossas respostas:
Talvez sejamos
As estrelas mais distantes...
Ou o restante delas
Na poeira...
Por que não seríamos
Obstantes
De alguma maneira?
Como ninguém sabe,
Quero ser a continuação
Do que fui antes...
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