sábado, 21 de fevereiro de 2015



A menos que...


A causa negligencia velhices,
Um paletó esfarrapado na cadeira
Aponta a idade vencida do senhor
Cansado de cercar as soluções

E nisso perder suas arestas...
A menos que a alma aplauda
O corpo que desfalece, a mão
Espalda a dor que a desmerece.

O encanto que se foi recrudesce
No tempo de torpor e uma prece
Demasiado longa em silêncio...

Quem à vida pôs toda a força
Já não gesticula o que padece
A menos que alma mantivesse.








Vamos enterrar o senhor dos sonhos


Os sonhos floriram na juventude
Entre abrasivos pendores cênicos
E uma força brutal de sobrevivos.
Mas o senhor dos sonhos está morto

Nesta realidade vil que nos plange
Abar que desfrutamos dessas dores
E retornamos lesos dessa guerra
Na paz que replantamos nas ideias

Vamos enterrar o senhor dos sonhos
Na real aspereza de vencer trilhas
E caminhar ilesos, cabeça erguida!

Mas o senhor dos sonhos está morto,
Mas o senhor dos sonhos está morto,
Vamos enterrar o senhor dos sonhos!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Na calada


Serenamente constato
As elucubrações vividas
Em instantes definidos raros:
O barulho de alguma coisa
Caindo na madrugada
Sendo muito maior que
A mesma coisa caindo
No meio da tarde.

Metaforizando:

O baque do governo
Em plena noite de domingo
Na eleição para a presidência
Da câmara...
Ah, se não fosse domingo,
Que barulho faria esse baque
Aos ouvidos desatentos,
Ou medrosos de ouvir...




Anos dourados


São lindas as moças
Que passam...
Que passam pela memória
Dos tempos idílicos
Quando
Qualquer gesto era convite,
Qualquer convite um perigo...
São bonitas as moças
Passando
Numa memória de risos,
Corpos feitos estátuas
Esculpidos pelo sonho
De os ter vivido...
São tão lindas as moças,
Que a lindeza delas
Faz sentido.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015



Pitadas


O que eu sei,
Que passa a ser o que ensino,
Pode ser uma ínfima porção
De meu destino.










Preste atenção:
A realidade tem seus deveres,
O sonho não.






Juízo


Maturidade é quando
Decisivos tornam indecisos,
Não pela perda de visão
Mas pelo ganho de juízo.










Na minha casa de memórias
O cheiro doce dos sumos traz
Um mundo que foi embora.









Cuide-se de cada palavra.
Cada palavra muda o sentido
Pelos acentos cometidos,
A mais traiçoeira é a vírgula.









O assunto sempre vário?
Sou pendão,
Não sou ovário.


Queda de braços, de vergonha, de ética, de postura...
Vendo nessas sessões do Congresso Nacional, o empurra empurra nas galerias e o baixo calão no palco principal e bastidores sórdidos, entristecidos eleitores que tentaram eleger representantes se vêm “desrrepresentados”.  A violência parece ser inerente ao ser humano, desde que a posse por algo material se tornou motivo de discórdia, dos genocídios aos tapas individuais, parece que nós nos conformamos com algumas atitudes, mesmo sendo contrárias ao senso comum, que a cada dia estão se tornando incomuns, quando alguém esbofeteia o outro em plena praça pública, ou no recôndito de suas casas, nos incomoda mas não seguramos a mão que bate nem confortamos a cara que apanha. Se assim o fizéssemos, provavelmente apanharíamos junto. Mas, a violência que foco não é assim tão sutil, as mortes por espancamento, trucidamento, tiros a esmo por migalhas, por diferença de opiniões, por motivos banais que levam aos atos absurdos de ações covardes, muitas vezes contra pessoas ou animais irracionais, sem capacidade de defesa, que são os mais atingidos, justamente por indefesos, como crianças, idosos e deficientes... Voltando ao nosso congresso de picuinhas entre tapas e beijos, parece-me que a última morte por assassinato lá dentro foi do senador José Kairala, pelas mãos de Arnon de Melo que não teve seu mandato cassado nem qualquer punição imposta. Buscando na história as mortes violentas remonto ao Bispo Sardinha, devorado pelos índios em 1556, Estácio de Sá em 1567, jesuíta Francisco Pinto, trucidado por índios em 1608, Zumbi em 1695, Duclerc em 1711 a facada no Rio de Janeiro, Claudio M. da Costa, “suicidado” ao ser preso com Tiradentes em 1789, e o próprio Tiradentes, esquartejado em 1792... Por aí vai... Pessoas de renome como Abreu e Lima, que dá nome à refinaria, morto por fuzilamento em 1818, Joana de Jesus, morta a baioneta em 1822, Frei Caneca em 1825, pelos mesmos motivos políticos, assim como Líbero Badaró em 1825, Pires Canto em 1843, Mena Barreto em 1869 na guerra do Paraguai, Saldanha da Gama em 1895, Moreira César em 1897 combatendo Antonio Conselheiro na guerra de Canudos, também morto na mesma situação. Carlos Machado em atentado, no mesmo ano. Euclides da Cunha, morto a tiro. Pinheiro Machado, a facada. João Pessoa, a tiro. Santos Dumont, suicidado por desgosto da violência da guerra com seu invento. Lampião e Maria Bonita, degolados... Nossa, é tanta violência para um povo dito pacífico, mas que resolve as pendengas no braço, desinteligentemente, como agora, mais ameno é verdade, mas cansativamente brutal, nas sessões congressuais que assistimos ao vivo na TV, em lugar dos rambos ficcionais, esses de verdade... Que vergonha termos elegido pessoas de tão baixo nível para nos representar! É lastimável que, ao longo dos séculos o ser “humano” se comporte cada vez trogloditicamente frente aos seus desafetos, como se, ao tempo da internet continuássemos ignaros às condições mutantes, crucificando os verdadeiros trazedores de inovações humanitárias, sem pejo pelo sangue derramado ao outro, desde que não respingue em nossos imaculados trajes limpos, desdenhando a formação recebida de nossos pais, em geral pacíficos e ordeiros condutores de reacionários futuros, cortando o elo da sociabilidade prometida real.
Sergiodonadio.blogspot.com

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015



Estações
Do livro itinerários

Busquei apreciar os dias,
A fidelidade dos dias,
das palmeiras, dos quintais,
Amigos de uma vida...
Inteira.
Descubro
Que o que quero perdurar,
Mais que a vida que tenho,
É a vida que tive antes...
O encanto das raízes...
Das escolas apreendidas
Pela vida... Das ruas do tempo
Ido nos desencantos
Aprendidos na dor.
O que não quero perder
É isso que deixei
Com o depois.

Sergiodonadio.blogspot.com