sábado, 21 de março de 2015



Enlevos


Estar ficando idoso
É aninhar-se, sem inquietação
Com sexo, postura, com lisura...
Pode seja apenas o aninho
Pelas coisas puras.

É um achego sem promessas,
Um abraço às aventuras...
Pode seja o calor que faltava
Pra dormir mais um pouco
No frio das madrugadas...

Pode seja acostumando às
Regalias sem promessas.
Apenas o terno achego,
A carinhosa angustura
Que não havia antes

Agora tanto faz ser
Ou não ser ereto, vigoroso,
Os braços dados compõem
O quadro da acostumação
Do amor dedicação.




Inventivas


Invento um modo
De sonhar um mundo
Que a frescura da manhã
Uma vez me prometera...

Parecia fácil acreditar,
Éramos inocentes, credos,
Tudo corria como correm
As águas das soleiras.

Mas esperávamos muito
Do anunciado na infância
Sobre porvindouros egos

Nas juras de um tempo
Entre a ventura e o ser
Capaz além da criatura.

quinta-feira, 19 de março de 2015



Do pedinte


O brilho no olhar sincero
Não precisa agradar-me,
Não quer agradar-me.
Apenas quer o trocado
Que lhe devo
Por ter o que não tem,
O pão e vontade de enforna-lo.
Nossas almas estão calmas,
A minha por repartir,
A dele pelo repartido meu.
Estamos quites agora,
Comendo o mesmo pão,
Sem metas a cumprir,
Nem eu nem ele.
Somos párias nessa sociedade
Pragmática,
Que tem de vencer a todos
Para saciar suas fomes.
Tenho pena desses que passam
Sem passar à vida
Seus conformes.





Tá virando saudade
Cada esperança...
Tenho por razão a vez
Dos mortos,
Eles se vão aos poucos,
Como agora me revejo indo.
Quem sabe inda posso
Viajar por sonhos
E acordar o dormido.
Os olhos inda brilham aventuras
Mas o resto do corpo
Se retrai,
Não da pra arredar pé
Da realidade de que dói
Subir escadas
Mesmo que a vontade
O seja.






Alô poeta:


Da janela
Em que olhas a lua
Eu olho a rua
Cada vez mais nua...









Não é o poeta
Que imprime versos.
É cada verso
A imprimir o poeta...






À face sombria de meu pai

A face inda rubra de um tempo
Crestada pelo sol a pino,
O corpo mordido pelas acontecências
Do desatino...
Eu,
Inda menino a gemer o andamento,
Acontecida a rua preme o som,
As ofertas líricas, o sol, a lua,
A tanger das vidas...
No seu suspiro parecendo frágil,
Num sábado qualquer,
Predito de seu tempo duro,
De durezas raso.
O corpo entregando o suspiro ágono.
Eu,
Inda menino, fundido homem,
Numa noite só.
Assim, de repente,na garganta o nó
De esperar sua morte...
-Como fora esse o destino trágico
De um criador de vidas,
Indo de partida
Incompreensivelmente só.

quarta-feira, 18 de março de 2015



Apenas caminhemos


Os ausentes se fazem presentes.
Agora todos estão aqui.
-Onde estavam quando
Nos quandos amanhecidos frios,
Importados cruéis?
As horas silenciosas são preciosas
Para perceber a necessidade
Da felicidade...
Não desperdicem momentos felizes,
Eles são tão poucos...
Não vale a pena cancelar viagem
Pela estiagem das verbas...
Não vale a pena prorrogar o riso
Pela lágrima momentânea...
No quando todos estão presentes
Não vale a pena somar ausentes.
Apenas caminhemos...
Apenas caminhemos...





Ranhuras


Dos enganos cometidos
Em nome das paixões
Um relevante é dizer-se
Da implosão a explosão...
Nada explode um coração
Espinafrado,
Implode uma mente
Em frangalhos...
Põe-se à dentro o sentimento
Guardado por timidez
Antes não dito ao verso
No momento oportuno.
Põe-se adentro a raiva,
Quietada pela comiseração...
Talvez ranhura...
Engano bem maior
Que a soltura do palavrão
Não esperado.
Dos enganos cometidos
O silêncio não é perdoado.






Não desperdicem os dias felizes,
Eles são tão poucos...
Os ausentes se fazem presentes
Nessas horas silenciosas...
Agora todos estão aqui.
Onde estou quando?
Nos quandos somados cruéis
Dos momentos pesados
Eles fogem, escondem-se
Nas faturas vencíveis
De cada promontória lida...















Na escala dessas esquinas
A vida apronta.
A vida é alguma benesse
Ou é afronta?









À espera dessas vidas conflitantes
No grito do nascer o que mais erra?
O útero, o ovo, o bulbo, a hera?
Qual deles seria a primeira fera?









Todas as vezes a mesma luz
Fosforescendo ideias...
Talvez por medo das mariposas
Que rodeiam esses planos,
Mas sonho guiar-me por ela
E ir-me... Todas as vezes,
Até que venha acontecer de ir.






No Arrependimento,
Como faz para retornar
Ao antes de ter sido?







O olho da providência


O olho no altar,
Emoldurado por um triângulo,
Olha que tudo vê, e corrige...
E expia a dor solitária
Do crente.
Expiemos a nossa, do não crente,
Feito sofrer o outro...
O olho em guerra?

0 0lho de Hórus,
Alquimia egípcia para os infortúnios
Do além...
Divisando a lua e sol,
O etéreo do concreto,
O feminino do masculino...
Expiemos o feito conter o outro
No olho da paz.






Terra de Canaã


No balcão da juventude
Vendem-se as alegrias...
A ironia é poder
Mas não saber desse poder
Enquanto jovem...
De pular cordas, oceanos, morros,
Saltitando sobre as derrotas,
Desdenhando das ofertas.
Depois tudo se encarece,
Do prazer
À dor do prazer,
Até só ficar a dor
A merecer atenção.
Daí, o balcão da juventude
Encerrou as promissões
Ofertadas ontem.

Sergiodonadio.blogspot.com




terça-feira, 17 de março de 2015



Visão poética


Um modo de entender
A visão poética das coisas
É ver o que não está...
Nas árvores de sua rua,
Nas pedras da calçada,
No olhar das crianças...
Tudo o que não está
É o que interessa
Para viver-lhas.

Agora que conseguiste
Os dês proeza de olhar
Os invisíveis
(que outros o sabem)
É o momento de poesia
Em sua imensa vista
De olhares ao facto
Tudo o que não está
É o que interessa.






Convite


Venham...
Venham ver o dia amanhecendo
Outra vez,
Silencioso, numeroso de imagens,
Poderoso de acordes...
Venham...
Venham viver o amanhecer,
Mesmo que tarde,
Possuído das formas líquidas
Deste mundo água
Entre as madrugadas e
O sol a pique.
Venham espairecer as mágoas
De seu atribulado ganhar do pão
As dores desse cansaço
De viver-las, pobres, modorrentas
Tardes de ganhar dinheiros
E raivas...
Venham ver que o dia tarda
A esperar seu olhar que extasia
Entre as necessidades do seu dia
E o seu dia de amenidades,
Simples horas de espreita
Dessa tarde,

Música


Nos olhares de canções novas
Uma estripulia de falares...
Disciplinem-se, palavras!
Obedeçam a ordem dada sobre
As coisas concretas e as
Abstratas.

Todas estão aqui, numa mesma
Frase, expondo o quanto pode
O senhor das idéias dizer
Das outras, as pornográficas
Interpretações das frases
Ditas n’água.

Trareis para vós lenços de seda,
Uma anágua, uma combinação,
Das vestes que não se vestem
Mais, desvestindo a moral,
Amoralmente deixada cair,
Apaziguada.