sábado, 7 de maio de 2016

Os frutos desta árvore


A árvore mãe frutifica,
Semeada de carinhos e consertos
Invade o que te é de direito
Ouvir os ranços da adolescência
Desse jeito... Com seu jeito.
Os frutos dessa árvore
Arvorificam...
Passeiam pelas sombras
Das galhadas
Procurando o sol da maturidade
Entre tropeços d’mágoa.
Os frutos dessa árvore
Intensificam
Sua jornada pra além da sombra
Dessa galhada protetora,
À procura de seu sol,
Sua aspereza
Ante as guerras que enfrentar,
Seja o que seja
É o fruto da mesma árvore
Benfazeja
Empunhando ao desejo de sê-la
Entre as sombras e as chuvas
Desses sóis postos na mesa.
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 Perse e Clube de Autores

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Enquanto desviam dinheiros...
do livro prismas

As crianças morrem
Enquanto desviam dinheiros...
As mães choramingam
Enquanto desviam dinheiros...
Os pais suam frio
Enquanto desviam dinheiros...
As escolas fecham
Enquanto desviam dinheiros...
As comportas esvaziam
Enquanto desviam dinheiros...
Os idosos morrem de frio
Enquanto desviam dinheiros...
Os famintos se mordem
Enquanto desviam dinheiros...
As feras trucidam
Enquanto desviam dinheiros...
As outras feras revidam
Enquanto desviam dinheiros...
E, pasmo, o presidente diz
Não saber das coisas
Enquanto desviam dinheiros...
O país estafa, suspira, morre
Enquanto desviam dinheiros.



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quinta-feira, 5 de maio de 2016





A poesia,
Quando acaba,
Se acaba...
Nada que
Se possa fazer
Para remediar
Um verso
Que se nega ser.
O lápis não escreve
O que deveria
Descrever.
A mente esquece
O que não deveria
Esquecer...
Daí... Nada a se fazer,
Senão mudar
De assunto
Outra vez...










Permeio a mão que veio,
No veio de meu permeio,
Das quantas vezes o meio
Seria a paz merecida vero,
A mesma que ainda espero
Entre as palmadas do veio.
Permeio a ação desse meio
De onde posso dever-me
À ação de mais esteio...
Do qual não espero,
Enleio.

















Esses ossos velhos
Do pinheiro apodrecido
Lembram
Meus tempos vividos...
Entranhadamente parecidos,
Como fôssemos do mesmo veio,
Este,
Que produziu pinhas e espinhas
E não se sabe vencido
Pelas intempéries da lida...
Esses ossos velhos,
Desse cara esmaecido,
Lembram
O velho pinheiro e suas pinhas,
E meus espinhos...
E nossas vidas.











A primeira impressão


A primeira impressão,
A que ficou do olhar,
Do maneio,
Do piscar ao vento leio
Intenções atabalhoadas
E um primeiro gelo
Na espinha espinhada...
A primeira impressão,
A que me veio, trouxe
Uma segunda olhada,
A que prendeu-me
A esse olhar nevoado
Entre esgueiro
E afanado veio...













A deseducação como método


Impensável granjear valores
Sob a tutela mal ajambrada
De semialfabetizar,
Numa régua passada por passar,
Saber por dessaber...
Indo à carga...
Abreviando palavras,
Na troca por símbolos erráticos
Em gestos insensíveis ao tato,
Em inaudíveis recados de sons,
Extrapolados
Nos pensares sem morada.
Essa palavrosa livre
Na malsucedida lavra,
Tantas vezes ditas as semânticas
Incitadas a dizer valores,
Sua verve grafitada nesses gestos,
Lamentando a formação de estilos
Mortos de whatsappadas...
Lidas por manadas.

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 Perse e Clube de Autores

terça-feira, 3 de maio de 2016

Alheados
Passam operários, suas pressas
De apressarem-se derrotados...
Mas, em verdade, tudo passa,
Como o som que se apaga
Na oportunidade de se calarem
Esses meninos de whatsapps...
Que te parece, Dona Maria?
Todos alheados ao tempo?
Parece alheiam-se aos fatos:
Passam carros com sons altos...
Passam bancários, suas gravatas,
Em plena praia de maré alta...
Gritos de febre, sinais de farsa...
Alheios ao tempo estamos todos
Nesse balburdio de querer viver
Num só dia toda uma vida...
Inda não feita por merecer.
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domingo, 1 de maio de 2016

Cara Senhora:
dedico a todos que a conheceram
De onde estiveres agora,
Sinto que estás aqui!
Sinto que não te perdi
Nas andanças que previra...
Sinto que não te ausentaste
Por teres morrido...
Sinto que presencias os atos
Que aprendemos de ti...
Sinto que somos abençoados,
Pelo que somos-te gratos!
Elegante Senhora, te abraço
E peço-te a benção outra vez,
Enlevado na lembrança
Do que fizestes por nós,
Do que desses de vós
Ao nosso discernimento.
Cara Senhora, obrigado!
Que mais dizer a uma Senhora
Tão cara a todos que conviveram
Com tua sabedoria e ética
E religiosidade de verdade?
O que não dizer: Adeus.
O que esperar: Tua benção
Outra vez.
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Perse e Clube de Autores
O olhar da mãe


A impressão
É de que tudo fora belo...
O olhar tranquilo,
As bochechas vermelhas,
As mãos calejadas,
A razão... Sempre a razão
No lugar da indignação.
A resposta exata
À pergunta mal formulada.
A questão das horas vividas,
Dos sonhos vencidos,
Das águas passadas,
Das mágoas esquecidas...
A impressão
De que tudo fora sereno...
As madrugadas mal dormidas,
Os partos desacompanhados...
A vida... Sempre a vida,
Acima das irrelevâncias
Dos sonhares parcos
De lembranças.
O que mais me lembra
Minha mãe
Era a sinceridade dos atos
E o silêncio ante boatos...
A vívida sabedoria de anos
Tabulando as crias afilhadas...
Um olhar de orgulho
A cada obstáculo vencido,
A cada caminho acertado...
A cada memento vivido.
Na minha mãe vejo outras mães,
Carregando berços
Pela vida afora...
Pelos desassossegos...
Pelas vitórias.
Pelo aconchego das horas...
Pelas escolhas, pelas encolhas,
Pela fé na mão que se dá
Ao ser que vem à luz,
E passa.
Senhoras... Elegantes Senhoras,
Eu vos pranteio!
Pelo que me veio a dar
Vossa atenção de se dar
E ser esteio.

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Perse e Clube de Autores

sexta-feira, 29 de abril de 2016


Café expresso
Excertos do livro Desfraldes
Dedico aos gladiadores do Congresso
Somos espelhos,
Quando olho seus gestos
Copiando os meus, vejo que
Estou copiando os seus...
A calma aparente
Entre paredes acinzenta
As mesas com toalhas
Quadriculadas,
As xícaras no aparador
Esperam... Esperando o nada
Acontecer aqui e lá fora...
A parede forrada de garrafas
Sujas, envelhecidas,
Deixa ver através dela
Novos gestos espelhados.
Somos todos vencedores
E perdedores na perdição
Nessas guerras de silêncios.
Somos aparadores
De xícaras que se movem,
Que levantam cedo
E trabalham... Se atrapalham...
Pegando o ônibus
Das quatro horas da manhã
E voltando à meia noite.
No meio da noite
Tomamos café e nos olhamos,
Fitamos nossos ombros cansados,
Nossos sapatos molhados,
Nossa roupa rota...
Então somos iguais?
Aparentemente, mas divagamos
Entre candidatos de esquerda
E de direita... Nenhum
Apontando à frente.
Então somos desiguais...
Diferentemente iguais
Perante a crise de desemprego,
De desescola, de dessaúde...
Amiúde nos encontramos
Nessas fomes que permeiam
Nossos gestos partidários...
E vemos que somos espelhos
Da mesma falta de governo,
Da mesma falta de futuro,
Das mesmas faltas... De passado!
Ele está calmo, olhando
Meus sapatos. Eu estou calmo,
Olhando os seus sapatos...
Ele toma o café amargo,
Essa é a pequena diferença,
O meu é adocicado.
Então nos cedemos à verdade:
-Estamos fudidos!!
Sua camisa vermelha me assombra,
Minha verde amarela alma
Assombra sua calma...
Nós lemos o mesmo jornal,
Mas nossas leituras são diversas,
Eu vejo canalhas de ambos os lados,
Ele se acanalha tentando
Justificar arroubos doutrinários.
Pode seja verdade
A sua expressão muda
Frente à realidade bruta...
Pode seja verdade
Meu sonho para o amanhã...
E, como ele, passo a ler velórios,
A ler esportes, classificados,
Para não ceder à ilusão
De que tudo esteja perdido.
Um cão vadio derruba o lixo,
Está mais certo que nós dois,
Menos faminto, mais saciado
Em sua fome sem dor.
Não vejo o céu claro esta manhã,
Mas o que importa?
Se todas as manhãs o sol
Virá conferir nossa revolta,
Nossa aquiescência ao mal,
Nosso despreparo para o lixo
Que este cão vasculha?
Assisto a todos os sermões
E não compreendo as razões
Desses religiosos cegos
Pela desatenção aos cleros,
Apenas repetindo salmos
Que não entenderam...
E vejo que hoje é o amanhã,
Feito do ontem reciclado,
Melhorado ou piorado,
Que importa?
Importa que a fome,
Via desemprego,
Bateu em mais portas
E ameaça fechar a fé
Em arruaças pelo saque
Aos grandes depositários...
Que importa o amanhã
Se hoje Inez é morta?!
Procuro, em vão, uma resposta
À indignação que me revolta:
Por que?! Porque somos tantos,
Tontos pela espera da esperança,
De tantos tempos tatuados
Em formas de amanhãs...
O hoje ontem foi vencido
Pelo conformismo...
Agora estamos consolando
O fim dessa manhã
Com café frio e moscas
E cães vadios e gatos perdidos,
E mendigos que perderam
O trem da noite vencida
E se amontoam nas portas
Fechada
O que será dessa imensidão
De fracos nas calçadas?
Procuro, nesse espelhamento,
Entre os lixos e sobras secas,
O que me apraz: Vidro?
Papel? Recicláveis?
O que será de nós nessa lixeira?
Seremos o lixo deles amanhã,
Seremos recicláveis amanhã?
Seremos podridos restos amanhã?
Procuro nesses olhares perdidos
Uma resposta: Quem seremos
Depois desse café Expresso,
Na pressa de encontrar
Nossos reflexos?!
Pode seja apenas sonho,
Ou pesadelo,
Mas é real o que sinto e vejo
Sentirem nessas mesas
Ordenadas
Com suas toalhas quadriculadas
Dando a impressão de largas,
De maiores, de ancho rescaldo
Das noites passadas
Nessa manhã de solitudes
E nada... Nada poderá
Vencer nossa derrota
Frente à necessidade de respirar
Esse ar mofo das verdades...
Nada nos fará desistir,
Mas poderá nos fazer
Regredir ao nada!
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