sexta-feira, 3 de junho de 2016

Auscultando


Ela não enxerga.
Pergunta, assim, de chofre:
-O que você acha que é o bonito?
Tento mostrar a beleza do lá fora,
- Mas construíram essa parede.
Rebocaram os tijolos desenhados,
Fecharam a visão das flores.
O latido desse cão é bonito...
O cheiro do corte da grama...
O passarinho chamando...
Aí eu vejo o que ela vê,
Através da parede construída,
O sentido do que é bonito...
Sem ser visto.


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quinta-feira, 2 de junho de 2016


Igualdade


Tudo que não é meu,
É seu... Menos o que
É de consórcio...








Tirar as vestes
Da palavra difícil
Até que fique fácil
A falsa mesmice.











Tudo o que pode
A mesóclise elitizar,
fá-lo-ei sem falar.








A difícil arte
De dizer fácil
A notícia difícil...











Quando chego perto
O pássaro voa. Sei
Quão assustador sou,
Por não ser pássaro...








Post morte


Mesmo que
Em vida não fosse,
Em morte acaba
Sendo...







A paz tem a ver
Com consciência,
Que tem haver
Com a paciência...







Poderia voar...


Nas grades da cadeia
Entre a peia e a lua cheia,
Mas estamos aqui olhando
Esse céu de estrelas.





No ritmo de outro tempo


No ritmo de outro tempo
Embalo minha fé em recalques...
Reverenciando momentos
Nas palmas ao sol nascente.
Sou aquele que combina sons
À alegoria dos passantes
Nessa procissão de crentes...
Que trabalha a argila para
Cobrir a casa das intempéries.
Moldo a louça deixada fazer-se
Do barro de que fui também feito
Entre bacias, baldes e defeitos...
Sou a rocha desfeita em bolsos,
Sou na foto a camisa xadrez,
Filho da hora tardia da guerra.
Sou a guerra vencida ser...
Somos, assim, irmãos de sangue
No que o tempo propôs e erra
No ritmo tardio do tempo
Tentando a paz da nova era.



Guardados


Lugar de guardar
Segredo é a alma,
O corpo é suspeito,
É condoído...
Lugar de guardar
Mágoa é o corpo,
A alma é suspeita,
É condolente...
Não tenhas pena de
Um corpo manco,
É por ter vivido muito...
É a alma surribando
Que interessa
No emaranhado fuso
Entre risos e lágrimas...
Lugar de chorar mágoa

É o coração perdoado.
Para o sítio aonde vamos


Para o sítio aonde vamos
Há jabuticabeiras
Em meio ao mato nativo
Uma grama selvagem
Alimentando
Coelhos e jabutis
E uma imensa névoa beira rio
Entre os sóis das tardes...
Para o sítio aonde iremos,
A tarde já se faz tarde,
A grama cresceu de novo
Depois de incendiada...
Os coelhos aparecem, os jabutis
Mastigam jabuticabas,
Nesse sítio que nos espera,
Ressuscitados.




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terça-feira, 31 de maio de 2016

Olimpíadas


Poderia voar,
Mas faltou-lhe asas...
Sonhos realizadores...
Agilidade de macaco,
Astúcia de periquito,
Cabeça de sonhador...
A menina de vestido xadrez
Apenas se desfez em lágrimas
Ao saber-se capaz...
No salto com vara,
Na corrida dos 100 metros,
Na natação, vôlei, basquete,
No tempo cronometrado
Entre a saída e a chegada,
Marcado o tempo vivido,
Marcado o tempo deixado
De viver-se...  Tendo ido.


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segunda-feira, 30 de maio de 2016

Consultivas
Me diz, professor,
Como dizer a palavra certa?
À certa altura
A tempo se rebela,
O ensinamento serve
Para desensinar o instinto?
O coração reage ao exercício,
A lâmpada se torna opaca
À vista do escrito
No quadro negro, agora verde,
Entre as lições do dia
E o que se sabia... à revelia.
Trâmites desnecessários
Num emaranhado de aprendizado
Sem poesia.
O não ensinado em classe,
Mas nas ruas, nas refregas,
Nas classes divididas em classes,
A certa altura dessa lida...
Diz aí, professor,
Está certa a palavra aqui,
Escondida depois da vírgula?
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domingo, 29 de maio de 2016

Recadinho breve
                 Aos estupradores:

Em casa convivo
Com três mulheres
De idades diversas...
Procuro entende-las
Em suas vaidades,
Cada uma com cada qual...
São florezinhas nas janelas
E no quintal...
São coloridas em suas faces
E roupas desenhadas serem...
Acho normal.
São vaidosas de serem belas,
E como o são...
São femininas aquarelas,
Em comoção...
Nem por isso estejam à oferta
De pôr a mão.
Assim são as mulheres...
Belas paisagens pela vida,
Mas distantes das atrevidas
Mensagens inundadas
De malícia.

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sábado, 28 de maio de 2016


Sob uma camada de cinza


Todos os sonhos da juventude
Assaltam
A ideia de pode-los visualizar
Entre as realizações da lida...
Sob uma camada de cinza
O desfeitamento das obras,
Materiais e imateriais,
Postos no fogo das intenções,
Malogradas uma vez...
Talvez grandiloquentes,
Visto por este prisma da idade
O tempo se indispôs com o virtual,
Posto frente a frente com o real
Dia a dia, sol a sol,
Nessas manhãs enevoadas
De surpresas desfiadas prontas,
Depois das madrugadas
Planejadas longas,
Pelo sono inocente,
Almejado real.




Escovamento


É preciso,
Entre os afazeres desse dia,
Escovar os dentes e a alma,
Como disse o poeta,
Há dois mil e quinhentos anos,
Ainda atual nessa fase de hojes.
Escovar os batimentos
Desses corações endurecidos
E o sentimento dessas almas
Abrandadas pelos ditos...
Escovar a consciência
Do que se faça ao outro
Antes que adoeça a força
Que resiste ao mal.
Escovar o mal do mau
E perceber a cinza
Que daí sai... E prurir
A paz oriunda disso...

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Inspirações

Sem saber de onde vêm
Ou para onde vão
Redigimos as palavras
Em garranchos a corrigir...
Simplesmente ligando as letras
E dando vida a elas...
Nada planejado,
Tudo intuído na força da mente
De, sem pensar, deixar fluir...
Sabendo que não nos pertencem
E fazem de nós seus locatários,
Fiéis locadoras de nossos pensares...
Parecidos com gravadores
Enviando mensagens lidas
Nas linhas do horizonte.
Sem saber pra onde vão
Ou de onde veem as mensagens
Enviadas de algum lugar...
Distante ou ao lado.
Apenas pensadas originais...
Mas não, são cópias de ideias
Vindas desses pensares soberanos,
Emprestados aos escritores
Que vivem escondidos nas mentes
Receptivas, escrevinhando
Vidas.


Boa sorte!


Que é um desejo
Além de uma suposição vazia?
Pode seja poesia!
Pode enganar-se em pensar ser possível o que é sorte...
Diferente de crença de uma força externa inexistente, quando decidiu jogar fora superstição antiga e substituí-la por lógica, 
pode tenha tempo para ver
Estrelas cadentes brilhar no céu,
ou atirar moedas em fontes  
Quando realmente não tem níquel! Como pode desejar boa sorte
A um amigo em um exame
Ou entrevista se não acredita
Que isso tenha qualquer impacto
No seu desempenho do que retórica vazia é ilusão... Está direito? 
Ou simplesmente acreditar na validade de alterar o futuro! 
Anseio por algo profundamente melhor
atrás da verdade dessas mentiras
Mantidas na esperança!



Batalhas


Depois do vencido
Perder os dedos
O vencedor acaba
Perdendo os anéis...










Passado o susto
Novo dia amanhece
Literal e virtual mente...










Complacências

Arrumando a raiva em fascículos
Compreendo a dor dos enfermos...
Vendo a febre consumir os nervos,
O apêndice contorcendo as mãos
E o medo... O medo da dor maior
No ritmo longo do outro tempo...
Visto-me enfermeiro, sinto o odor
Da raiva, corrente fria, mazelara
A água corrente entre as veias,
Levadas serem fugidias à agulha...
Tudo ao tempo em que a chuva
Fenece a febre do outro, lá fora...
Na palma aleatória do tempo hora
Já vem a noite alvorando a aurora,
Que importa a dor ou a secura, se
A moça discute a bebedeira dela
Com todos, que se condoem disso,
De poder assistir à falência do ser
Frente à coligação de erros crassos,
Como fundir-se à cana a hipótese
De cansaço... Rocha incólume que
Do fracassado desmaio vertera
Criatura em desvelo pelo outro,
Que se o fez vassalo?