domingo, 4 de março de 2018


A palavra desenha
Uma vida intensa
De cores vivas…
A paisagem se descortina
Na folha aberta de um poema
Saludando a vida…
As cores desses mares,
A força dessas marés,
A vida que respira entre
Formigueiros na grama
E passam desapercebidos
Pela visão de horizontes
Mas florescem na palavra
Nesse convívio de fontes…
A palavra difere a cada pena
E mostra a cor viva
Que te acena…



Das desconsiderações


O Neymar quebrou um dedinho.
O lula perdeu um dedinho.
Milhares perderam dedinhos…
Mas não tiveram alas de hospitais
Ou aposentadorias por isso…
Os desdentados desse país
Tomam a sopa rala dos albergues,
Os pés quebrados se amontoam
Nas trincheiras dos hospitais…
Mas as desimportâncias disso,
Assustam moradores escondidos
Das balas justiceiras nesses becos
Sem saída para sobreviventes…
Quantos neymares serão preciso
Para a consciência tomar juízo?

sábado, 3 de março de 2018

As veleidades
Ouvido de um velho sábio:
"As veleidades de cada um
Divergem com as parcerias",
Excentricidades veleidosas,
Assumidas em atos, escusos?
Embretados nas serranias…
Para uns, dinheiro fácil,
Aos outros, boa pescaria…
Um malfadado escusado
Em formas erradias…
As veleidades de cada um
Fazem da morte nova vida,
A outro o fim da linha,
Fraca magia…
Do nascer de sol geado
Ao pôr do sol vermelho
Entre eucaliptos eretos
E uma saudade indizível
De cada recomeço…
A veleidade de ter tido
No tempo novo endereço…
Talvez o sonho deixado
Sonhar o tempo inteiro
Que amanhã farás isso,
Mas ainda é cedo?
E se o tempo te roubar
O amanhã de manhã cedo?
Esta vontade hesitante
Deixa correr adiante
A volubilidade carreira…
Amanhã, já estarás maduro
Mas as viagens do futuro
Passaram no ontem medo…
Utopias fazem os dias
Virarem sonhos falidos
Entre vontades vencidas
Pelas dores das idades
Acumuladas em fazimentos
Entre obras de arte, casas,
Arruamentos…
Chegou teu amanhã cedo,
O tempo não te faz medo,
Apenas cansa a vontade
De partir, navegar, amar
O que te fora caro um dia
E se desfez em alegria.
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domingo, 25 de fevereiro de 2018

Nos longes da memória


Surpreendo-me
Com a fragilidade de meu corpo…
Lembro tempos ágeis
Em que desdenhava certas dores…
Tempos em que os idosos
Pareciam forjadores de mementos.
Arrependo-me
De tê-los visto à tal distância,
Cheguei lá!
E parecia tão longe de mim
Este momento…
Essas dores no corpo e na alma,
Sentimentos,
O fraquejar das pernas cansadas
E as lágrimas condoendo-me
De ver quanta força fazem
A cada movimento
As pessoas que construíram
Estradas, edifícios, famílias…
E assentaram tudo,
Com reboco forte o bastante
Para seguir adiante.

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sábado, 17 de fevereiro de 2018

O circo


Passa pela rua;
Traz presos seus leões
E seus macacos
E seus elefantes…
As pessoas olham
E não se veem neles,
Apenas as pegadas
Desses animais presos,
Tão quanto as pessoas
Que passam pela rua
Neste circo de horrores
Do mesmo modo presas
Na sua vida urbana
Suada e desprezada
Pelos domadores…









A pertinência das impertinências


Como você vê
As brigas numa rua charmosa
Entre meninos escabrosos?
Vê seus cabelos esverdeados
Com reticências? Vê algum cérebro atrás desses cabelos fedidos,
Que demonstrem inteligência?
Como você ouve esses meninos
E suas incongruências?
“Não há mais músicas como antes”
Claro que não, o antes já morreu,
Ninguém mora mais lá
Onde o sossego se perdeu…
Só você…
Agora que nós somos eu
O momento toca tambores,
Pinta cores nos olhos, finca flechas
Nos narizes… E bigorna cicatrizes…
Como você vê
O futuro desses “meninos”
Frente a você?


Arrepios


Meu cachorro morreu ontem,
Estava velho aos dez anos?
A conclusão é que nós, humanos,
Vivemos demais,
Por isso sofremos mais
Essas labirintites e diabetes,
Mas nossos corações cansados
Não podem nos deixar,
Como nossos sexos e nossa audição
E nossos colchões tortos
E nossas xícaras trincadas
E nossas cuecas sem elásticos,
Ou nossas mentes destravadas
De nossos quereres… nos deixam,
Meu cachorro é que está certo,
Eles sempre estão, com sua linguagem
Universal, que invejo, e seu olfato,
E sua cauda e seus dentes afiados…
Meu cachorro morreu ontem,
Antes de ver morrer seus hábitos.



Coisas de velho


Sinto sons familiares
Se distanciando… Lonjuras
Dessas falas costumeiras…
Alguém vendendo algodão doce
E rapadura e quebra queixo…
A buzina das charretes,
O estalido dos portões…
Sinto essas lonjuras quando sonho
Quão distantes estão as vozes
Que chamavam…
No entanto elas estão aqui,
Tudo se materializa no zumbido
Rotineiro desses ouvidos
Cansados…








Vencedores


Às vezes
O jogo está ganho
Mas é preciso jogar
Até o último segundo.
Às vezes
O jogo está perdido
Mas é preciso suar
Até o último segundo.
Admiro esses guris,
Catadores de latinhas,
Divisores de sarjetas…
Para eles o jogo
Está perdido
Mas suam suas forças
Até o último segundo.








Quando chegar a hora


O que queres, menino?
Destes o teu melhor para tanto?
Tua ideia deve estar explodindo
Dentro desta mente aberta
Para que sigas adiante…
Não tenho cacife para tanto
Mas, já perdi tantas
Que posso argumentar sobre
O que erras nas assertivas…
Então, queres mesmo ir adiante?
Pergunte ao teu coração,
Às tuas entranhas, à tua mente…
Perscrute tua alma sobre tal,
E se tudo em ti estiver de acordo,
Leia na tela do computador
Tuas chances reais…
Aí, sim, é que vais te dar mal.



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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A vez das coisas

Quando te vês assim,
Dono desse mundo
Em que habitas…
Olha ao redor,
Veja quanta coisa se agita
A seu desprendimento…
As coisas falhas,
As coisas válidas,
As caixas de água ou lixo,
As periferias disso…
Vês quantos independem
De tua presença?
E tu, não fora essas caixas
E guias e águas das chuvas
E falhas das coisas,
O que te valias?


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Reticências


A melhor música
Pode seja o silêncio,
Dou-te esta vírgula
A cada entendimento,
Que falta faria
Se não houvesse pausa
Depois de um xingamento…
Dou-te esta vírgula
Para que entenda
O sentido pávido
Desta sentença…






Voando com meus versos


Quando me vejo,
À uma distância segura,
Me vejo feliz,
E isso é um perigo constante
Para quem olha o mundo
E percebe a miséria do mundo
Em volta…
E não faz nada para mudar
Isso.
Bem,
Todos os versos estão semeados,
Deito-me
A esperar que amadureçam…
Agora
Todos os versos estão cumpridos,
Espero que não apodreçam
Antes de meu corpo,
Abandonado numa campa fria,
Não se preocupem, não estarei lá,
Estarei voando com meus versos…
Voando… Com meus versos…
Sobre todos os senões,
Deixados para trás.
Sem ganhadores


O amor
É esta chama
Que queima ao sol
E nos refresca
À sombra…
Somemos as horas
De amar ou odiar
E chegaremos
Ao final num
Empate.





Meu olhar almeja
O que
Minhas mãos alcançam
Mas
Minhas pernas tremem
E cansam…
Procuro neste palheiro
A agulha que possa coser
O cansaço do corpo inteiro
Ao sonho de verter…
As águas em que navego,
Os suores a que me apego,
O olhar vendo lonjuras
Ao passo da criatura…
Somos parceiros na viagem
Mesmo que desague
Em desventura.






Corrida


A vida não espera
Eu tomar fôlego…
Corre… Corremos…
Guardemos a raiva
Para o amanhã…
Hoje tenho pressa,
Mesmo sem saber
Para onde seguir,
Seguir adiante…




terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O círculo que faz o compasso
Estavas alí,
Invisivel na tua espera,
Vestindo-se
Da placenta de tua mãe,
E já eras…
Viajavas alí,
Entre as vontades e as necessidades
Nessa esfera,
Enquanto teu sonho se afasta
A cada quimera
Do traço dos desencontros
À procura
De míseros pontuamentos
A seu critério…
E o céu continua distante
No horizonte
À vista do inebriante fim
Do arco-íris…
Entre o aqui e o depois
do sonho, iludido ser
real.
O que vês pela frente?
O que te vai pela fronte,
Se ao caminhar pisas teus passos
De ontem?
Bates nessa parede,
Na porta que desenhaste nela,
Mas que não existe!
A porta se fechou no ontem,
Naquele sonho amarelecido,
De antes…
Pediste ao teu Deus
Mas Ele silencia ao teu pedido
Pela estapafurdia vontade
Do que querias sem o suor
De tua face…
O que tens pela frente
É uma vida inteira de calosidades
Antes que tudo passe.
Pensaste
nessa hora dolorida?
Nessa fusão
entre sonho e vida?
Gritavas para que te abrissem portas,
Mas apenas gritavas…
E as portas não se abrem,
Senão ao gesto forte de força-las
À mão e ao corte de tua navalha…
Teu Deus precentira cada falha,
Cada desistência, cada ira…
Teu relógio, neste instante,
Aponta os ponteiros empatados
No zero simultâneo
De horas, minutos, segundos,
Transformados dos anos…
Pensaste nessa hora advinda?
Ou estás ainda naquele útero
Que te aqueceu a vinda?
Os passos que deste, deste…
Agora os passos que tens de dar
Ao que mereces…
Teu calendário emenda
passado e futuro
e,
embora tu não entendas,
lavra teu prisma infinito
entre os dias vazados e os por vir
nessa contenda.
Encontrarás,
Nas cicatrizes de teus dedos
O desvelo de teres sido
Inteiro!
Toma dessas mãos que te afagam,
As tuas próprias mãos,
O ar que não te é alheio
E leva ao porvir de teu anseio
O que tens pela frente
De teu meio.
A noite escura
Não te vem do alto céu nublado,
É de teu céu que anoitece o eito
Em meio dia feito…
No lago o peixe parece-te um pássaro?
Mas nem o pássaro voa
Ao primeiro passo,
Tateia o ninho, como o peixe a lama,
Como tu a cama em que deitaste,
Sendo todos do mesmo meio,
Ocupamos nosso espaço sobre a terra
Ou sob ela,
Pendente o esforço
De caminhar o antes desta noite,
Que cada um de nós,
Pássaro, peixe ou homem,
Faz-se singular, embora múltiplo,
E respira o ar, puro ou impuro,
De cada esfera
Dentro dessa esfera maior,
Em nosso mundo.
A distância é prisioneira
De teu remo,
Rema… Rema…
Que a noite está distante
Mas já chega
Ao teu penar e teu contentamento,
Que o sonho faz-se real
A cada trecho
Se sonhado menos.
O círculo que faz a esfera
Está pronto.
Nadou o peixe, voou o pássaro,
Caminha, homem, tu,
Que vieste de tão longe,
Descansa,
Que te espera a esperança,
A última que mata
O que seria a dança
À música esperada
Nessa trança.
Dorme, criança.