domingo, 10 de agosto de 2014



As peripécias do Dionysio


Caro Dionysio, cincoenta anos tem de ser escrito por extenso... Sei que já disse isso, mas vale a pena repetir alguns anos depois, com a mesma ênfase. Lembro de algumas reuniões de pauta que fizemos, do intercâmbio pessoal, sem internet intercedendo, das grandes elucubrações do Dr Altevir em sua genialidade.  A gente, sem querer, se torna saudosista. A RC ta bonita que só, mas puxado pela saudade, no tempo dela azulzinha, sem cores nem capa dura, era mais prazeroso de ler. Talvez pela intimidade com os amigos e o conhecer de motivos: O Altevir, a Tenha, o Vitalino, o Narciso, o Leandro, o Beffa, o Samuel, a Nadir, a Delvide, o Antonio Tenório, o J. Mateus,o Mario Branco, nossa... tantos! Claro que não consigo lembrar todos aqui, mas faziam um recheio delicioso de folhear. Era tempo de inocências ou ingerências? O que mais valia era o prazer de ler o que diziam tantos companheiros de fortúnio... esta semana a SABIMA (Sociedade amigos da Biblioteca Pública Machado de Assis)  prestou uma homenagem, mais que merecida, ao Sr, Antonio Tenório, pela sua vida e obra de poeta, quando ele, de memória, declamou um poema, chegando aos noventa anos com mais memória que nós outros, que lemos nossas falas na ocasião. Foi um bonito sarau.
Se o tempo da juvenil idade é muito curto, guardemos a jovialidade, naquele tempo de basquete campeão, vibramos muito com o Zinzinho e companhia, tempo de festas, aniversários da cidade eram comemorados e bebemorados... Com as barracas das nações, as danças, as cantorias, a cidade engalanada para os fins de ano, com os arcos iluminando a euforia... Tantas comemorações que reavivam um pouco com os tempos atuais... É saudosismo ou realmente a cidade era mais alegre? Até os concursos de misses tinham outra conotação, e a RC sempre estava presente. Vivemos agora uma cidade onde as pessoas não se conhecem, uns gatos pingados nas filas dos bancos e mercados são-me conhecidos. A cidade cresceu com a nação, mas parece que se desumanizou com ela, as ruas tranquilas se desinquietaram, a violência assume ares de mando, as cercas elétricas e muros cerrados espelham bem isso. Fico me indagando se o progresso material evidente traz um processo enarmônico à cabeça das pessoas? Mas sou teimoso, caro Dionysio, não arredo pé do otimismo, não ergo muro na minha casa, ou na mente, não conluio com o medo, apenas tomo mais cuidado... Nesse tempo de utopias combalidas, prefiro sonhar poeticamente o arrasto dos dias feros, sou itinerante e não tenho itinerário... Apenas respiro o ar na gratuidade de respirar. O resto é comprável. Nós humanos devemos invejar a perenidade das coisas culturais, como esta revista, antes de tudo, da cidade. Parabéns caro amigo, pela teimosia sadia de continuar!
Lembro que a cultura é algo eternizado na mente das pessoas, fácil conferir: Neste tempo de eleição, se perguntar quem foi Machado de Assis, todo brasileiro deve ter ouvido falar. Se perguntar quem foi o Presidente da República daquele tempo, quem há de lembrar? Assim é em escala, se perguntar da RC , muitos vão se lembrar, mais do que dos vereadores daquele tempo. Mesmo que a desmemoria da internet interceda, haverá sempre alguém querendo ler o que se escreva.                 Um abraço RC



Pai,  vai com Deus...


Eu estava aqui enquanto ias,
Ainda estarei quando fores.
Vi tua calma quando morrias
E vai-me morrendo pouco a pouco.

Um tanto tua alma se despedia
Como despediram de ti os ossos,
Mas fico aqui pensando nisso,
Refletindo o quanto não posso.

Procuro esquecer mas não consigo
Nas horas vazias do pensamento
Mesmo que de mim não tenhas atento,

A guardar meus passos indecisos
A perguntar por mim se te olvido
A fazer-me chorar quando te lembro.

Sergiodonadio.blogspot.com

sábado, 9 de agosto de 2014



Pais
sergiodonadio.blogspot.com

Quando o conheci
Cuidava suas dores...
E eu menino querendo
Sabe-las quantas...
Mancava os passos,
Não me fazia abraços
Aquietado ao canto
Alienava-se.
Quando se foi, conheci
Que plantara flores,
Jabuticabeiras, hortas,
Galinhas, cachorros e...
Meninos...

Sob o olhar desse pai,
Alheio às pequenas
Dúvidas filiais
Cresci...
E vejo-me cuidar
Minhas dores, meus livros,
Sonhadas hortas,
E os meninos,
Ainda estou aqui, pai,
Alienado nesse canto
Mancando o passo
Sem fazer abraços
No que perdi.


Meu pai, sempre o cara bom.
Foi, mas não se deixou levar.
Um dia, inda cedo na sua vida,
Contraiu esta moléstia ferina,
Que o levou tempos depois...

A sua coragem em enfrentar
As desavenças da mala-sorte
Faria suspirar a última vez
Dizendo: tô gelado sim, filha,
Mas não tem importância.

Frente ao desespero da filha,
Que a morte é parte do viver,
A parte mais lógica, explicita
Talvez a mais merecida... Ou
Não, mas a parte mais certa.

Nas incertezas de caminhar
Ele dizia e provou que, enfim,
Chegada sua hora, a coragem
Do homem acima do medo
Do macho raçudo de antes...







Este foi o pai que convivi,
Sem abraços e beijos, mas
De um amor rude e sincero,
Nas viagens, nas roçadas,
Nos portões dos sítios, que

Faríamos juntos, eu criança
Ele adulto, paciente quando
Saí do exame para exército
Estava esperando para dizer:
Tudo bem? Como a saber,

Conformando revide muda,
Não precisava de palavras.
Este meu pai, me domou
Fez-me pai também, antes
Orientou-me filho a viver,

Que me respeitou pessoa
A conviver a extrema hora
Como iguais, de mesma fé
Este meu pai, um cara bom,
A erigir um lar de sua casa.



nostalgia
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Meu pai nasceu em Anápolis.
Mas Anápolis não existe mais.
Meu avô veio de Itália,
Mas Itália está muito longe...
Por isso só vejo poeira
No que ficou para trás
E que o tempo encobriu
Com suas vidas recentes
Que vêm me abraçar.
Meu filho dirá de mim
O que digo de meu pai?
Sei não, meu filho é outro filho,
Não é o filho que fui
Como não lhe sou meu pai.
Anápolis desapareceu,
Do pai só tenho foto,
De mim só tenho eu.












Ao meu pai.  (E a Drummond, pelo poema a mesa.)

Bem que gostavas da festa, e, pai, que festa te faríamos hoje, os teus filhos que não bebem e os que gostam de bebericar, unidos na mesma sala, esqueceriam seus temores, suas mágoas, desavenças, lamúrias impuras, para o preito à sua pessoa. Ali, sentado à cabeceira, olhando de lado a lado teus descendentes diretos e agregados, que também o são, com certeza, terias os olhos d’água ouvindo o desarrimado canto dos desafinados... mas, o que conta, senão a emoção do momento? Sei que, com teus olhos acostumados a ver lonjuras, verias nos teus filhos os filhos deles, que um dia vieram, por ventura, e que te arregalavas acariciando-os pequenos, vindos à ti. E, do teu lado, pai, nossa mãe, alicerçada, a que pôs os filhos à mesa guarnecida sempre, sempre arrumada, que esses filhos sessentões viriam pedir-lhes agora que cosam, não as calças rotas, mas as almas. Do lado desses sisudos senhores, estariam ambos abençoando o momento.
Bem sei que gostavas das viagens, pai, estivesses aqui agora, que viagens faríamos juntos... a planejar os meios, as paradas, os destinos de nossas jornadas...
Bem sei que querias a maturidade dos seus... e, pai, que bom se aqui estivesses para ver teu sonho realizado.
Pai, junte seus tratos e vem, que é hoje dia de festa, dia de tê-los ao lado de nossos sonhos e de poder sonha-lo também, com sua aura de bom pai e bom cidadão, como poucos vivenciei. Sei que devem estar juntos, numa alegria maior do que poderíamos oferecer, mas por amor e ternura vimos convida-los para outra vez juntar-se a nós, nessa ilusão de fartura, de amor, compreensão, agora que estamos sós, com vossa ausência fazendo-se presente em nossa sala... vazia.

Sergiodonadio.blogspot.com