segunda-feira, 12 de janeiro de 2015



É preciso saber
                                  Aos meus netos

É preciso saber
Que não há aprovação alheia
Para teu respirar...
E respirar é almejar futuros,
Conhecimento, viagens...

É preciso saber
Que a voz do outro
Não ordena que te cale...
Porque teu grito tem o gesto
De resposta, em silêncio.

É preciso saber
Que a viagem pode ser o ir
Sem sair desse lugar
Em que te sentes bem,
Sem esperar do outro teu sentir.

É preciso saber
Que depende de ti mesmo
O abrir caminhos nessa guerra
Que alavanca tua paz,
E que disso és capaz

Sabendo as regras
Do que é preciso saber
E respirando
Esse ar de almejos,
Viajando conheceres,

Desfrutando o poder
Que a voz do outro
Não impede,
Teu grito será ouvido
No teu silenciar.

Que a viagem será ficar
Em ti, resguardado
Onde te sentes seguro.
Que não será preciso
Esperar de outros

O que preciso for,
Pois dependerá de ti
A razão de sorrir ou chorar
Que te fará em paz.
E disso és capaz!
A senhora idosa
Do livro cotidianos

Preparou a mesa
Com chá e biscoitos
E petiscos caseiros,
Esperando a morte...

Postou-se ao espelho
Com pós e batons
E roupas missais,
Esperando a morte...

Atoalhou a cama
Com lençóis vermelhos
Guardados de antes...
Esperando a morte.

E a morte não veio
Mas lhe trouxe vida
Ao preparar-se para
Tê-la bem recebida.


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A sombra do giz


Na manhã de sol
A prioridade é renascer
Das coisas deixadas morrer
A cada desistência.

A cada risco de giz
À sombra do que se fez
E do que se deixou por fazer
Na manhã de sol.

A manhã desse sol
Será exemplo de coexistir
Com tantas estrelas

Sem perder seu brilho
Ou calor ou valência
De ser tal estrela.






Atoalhado


Atoalhemos nossa mesa
Mesmo que a visita não venha,
Será mais bonito conviver
Com a solidão...
Sem o mármore frio de antes
Sob os braços tensos,
Sem a sensação de vazio.
A beleza da toalha fará
A presença dos ausentes.
Saiba que aqui somamos
Nossas vidas vividas
Às vidas por viver...
Saiba que assim atoalhamos
O que seria a espera
Do vazio...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015



 Úteis


O que fiz é menos
Que o deixado por fazer,
Muito pouco
Considerando oportunidades
Perdidas.
O feito, apesar de pouco,
Foi cumprido na meta
Presumida lógica.
Agora o feito é tudo.
Acabou-se o tempo produzido?
-Não!
Mas o sentido da utilidade
De continuar com isso.






A idade
Em que a criança adolesce
A faz pensar-se diferente.
Mal sabe que a vida
Adolesce em cada um
Repetidamente...








O sol nasce para todos,
A sombra para quem
Se ensombrece.









As pessoas
Que importam a mim
São todas pequenas
Na imensidão
De celebridades...
Não são comendadores,
Vegetantes repatriados...
Apenas são...
Com meu passado.









Penitências


As lembranças do preso
São amargas...
Derrotado pela insolvência
De sua personalidade
Ele vacila entre poderes
E a carcaça de um boi.
Veja a cena, expia os males
De que te queixas...
De teu leito quente
E de tua mesa posta...
Não te é possível
Mensurar
A vida fora disto
Que chamam lar?










Ataques


Há uma terra de tradições.
Há outra terra, do presente.
Entre elas há de se ver
A terra que é de ninguém
A responder pelos terrores
Que em toda terra se tem.







Aos que partem,
Que por agora se repartem,
O desejo de boa sorte
De boa ida e boa volta.







Proseado
Do livro cotidianos

Ao falar de coisas,
E da vida das coisas,
Desfalo o que falaria
Fosse a coisa gente,
Que por ser coisa é poesia.

Poderia dizer do irmão,
Que partiu há tempos...
E não volta para o dia
De nossos anos...

Poderia falar de outros,
Que passaram, e passarão,
Pelas nossas vidas,
Voltando sempre
De despedidas...

Mas ao falar de coisas,
Elas me ouvem,
Me atendem,
Simplificam a mente.

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O errado,
Sem intenção do erro,
É perdoado.





Importa
O encanto
Que o canto
Canta...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015



Renitências
Do livro cotidianos

Aos que morrem cedo
Longevidade é eternidade...
Impacientes
Digladiam com idosos
Que renitem. Por herança?
Pelo cuidado precisado,
Pelo espelho envilecido.
Dentes frouxos, voz ranhosa,
Ouvidos moucos
E a intermitência de tossir
E sugar sopas barulhando...
Os que morrem cedo
Não sabem a dor de envelhecer
Esses ossos frágeis,
Esses músculos flácidos,
E gracejam...
Os que ficam,
Sentam em suas ancas
Esperando o chá.

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terça-feira, 6 de janeiro de 2015



Presunções
Do livro cotidianos

Por que o tempo
Não se faz de pressas?
Por que o rio
Não foge ao leito?
Seria projeção destino
O a presunção de feitos?

Não há que analisar
Comportamentos:
Porque o rio corre,
Porque chora o
Recém-nascido ou
Ri-se o bêbedo...

Alcoólatra embevecido
Pela visão idílica
De etílico momento
Que só ele vê e vive
Por desprendimento
Dos revides...

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sábado, 3 de janeiro de 2015



Pronto
Do livro cotidianos

Tudo que foi feito inteiro,
Se partiu
Em metades simbólicas
Dum pavio.

As rachas no concreto
São concretas,
Tanto quanto as insinuações
Do sarcasmo.

Aqui e agora...
É a hora do adeus.
Depois
O mundo parecerá menor

E o caminho
Para o santo sepulcro ou
Para a libertinagem ateia
Guiará os passos desta Medeia.

Quem sabe o inteiro
Se refaça agora,
Tangido pelo concreto
Da memória...

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quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Assomadouros
Do livro contexto
Quantas vezes falamos
Das utilidades inúteis?
Talvez mais de cem,
Por inúteis, deixadas de contar.
Da facilidade de sorver defeitos
É que estamos juntos
A desejar bom ano,
Até aos eleitos!
Quantas vezes “desutilizamos”
Erros de informática?
Antes imperdoáveis, agora
Corriqueiros?
Por um ano inteiro desse calendário
Erramos pela aí
Nossos passados...
Perscrutando futuros iminentes,
Como fora hoje divisória
de opiniões contrárias...
Tantas vezes nos deixamos ir,
Antes das madrugadas

Sem pensar nas tempestades
Das ações em equilíbrio
Com as reações...
Tantas as vezes repetidas
No mesmo erro
A esperar que esse erro
Se torne acerto
Pela teimosia de errar
“Disterço”.
Repetindo a sintaxe
Do pragmatismo
Nós é o que não somos,
Nós faz o que queremos,
Que o tempo de errar
É inóspito de acertos...
Assim, por que assomar
O que seria o certo,
Se erros são capazes
De acertar em cheio?
Sergiodonadio.blogspot.com