sexta-feira, 24 de abril de 2015



Gerações migrantes


O futuro
Rápido se tornando
Passado...
O passado esquecimento,
O presente presenteado
Sem noção.
O tempo,
Este milenário,
Quase não se mostra,
Apenas ruge pelas costas
Do ilusionado.  
Assim a ponte, desfeita,
Expõe-se às intempéries
Das poucas chances...
-“maledetta” diria meu avô,
Capinando carrapichos
Em roça alheia.








Velando


Parece-me estranho
Uma vida terminando...
Depois de tão rastelada
A separar das palhas
Os grãos sadios
Ouve-se a notícia fúnebre
Do que partiu.






Acidente na esquina


Acidente na esquina:
Quem fica com o morto?
Quem fica com a moto?!
Sempre a mesma sina...





Jogo de cartas


Alguém pode dizer
O que esperam de mim,
Arcado assim às dores
Da idade?
Corri todas as corridas,
Perdi-as ganhando etapas,
Prendi os meus fantasmas
Nessa redoma,
E parto...
Tenho outras vidas
A viver...
Tenho outros caminhos,
Outras etapas que ganhei
Nesse infindável
Jogo de cartas.       










Desenhamento
Do livro Pinturas  Edit. Amazon.com

Desenhar versos
É meu modo de colorir
As telas da vida...
Minhas cores,
Que pretendo claras,
Às vezes escurecem por conta,
Mas serão sempre claras
Em meus sonhos,
Nunca pesadelos.
Eu lavo meus pinceis
A cada vez
Mas volto a pintar
As mesmas cores
Sempre.

Sergiodonadio.blospot.com


quarta-feira, 22 de abril de 2015



Sem tempo


Um longo longo tempo...
Que te parece,
Usar as asas
Que não tens
Para voar teus sonhos?
Um longo tempo entre
O plano e a execução
Um longo tempo
Perdido em ilações...
Um longo longo tempo
passeando ideias
 pelos corredores da mente
procurando vazios
para onde possa remendar
acontecidos
e pausar
o hoje para o futuro
porventura sonhado
voar, sem tempo...






No silêncio absoluto
Do livro pinturas ed. Amazon.com

É no silêncio absoluto
Que se ouvem os mínimos
Barulhos,
E nos mínimos silêncios
Que se pode pensar tudo.
O igual dos dias
Nunca é o mesmo...
As diferentes nuances
Passam despercebidas
Pela mente distraída
Nas necessidades.
Na conversa distraída
Sinto falta
Do silêncio absoluto
E seus mínimos ruídos
Alardes.
Somos as manhãs da vida,
Depois
Somos tarde.

Sergiodonadio.blogspot.com




Gerações migrantes


O futuro
Rápido se tornando
Passado...
O passado esquecimento,
O presente presenteado
Sem noção.
O tempo,
Este milenário,
Quase não se mostra,
Apenas ruge pelas costas
Do ilusionado. 
Assim a ponte, desfeita,
Expõe-se às intempéries
Das poucas chances...
-“maledetta” diria meu avô,
Capinando carrapichos
Em roça alheia.



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Ontem um pesqueiro com cerca de 700 imigrantes também naufragou no mar Mediterrâneo, a 96 km da costa da Líbia e a 193 km ao sul da ilha italiana Lampedusa. hoje naufragou mais um:
A sepultura dos náufragos
Em luto pelos mortos de hoje:
A sepultura dos náufragos
Vindos dos desertos de vida
A caminho de Roma,
De uma vez prometido paraíso,
Quebrado pelas ondas de onde
Se visualizavam montanhas...
A sepultura dos náufragos
Em ascensão aos mapas
Das farturas para suas fomes...
A desolação dos sonhos.
Das mortes a visão trágica
À procura dos bosques perfumados
Os ossos se desfazem em água,
Espírito da vitória... Em derrota!
No intuito de levar seus passos
Às pegadas dos vencedores,
Inclinados ao acesso verde,
Onde florescem chances de viver.
Entre os mortos o sorriso
Da criança desfez-se em lágrimas,
A luz da promessa das flores
Em cinzentas mágoas...
Ao longo a grama se espalha
Mas o mar não deixa chegar.
A sepultura dos náufragos
É este lugar.
Sergiodonadio.blogspot.com

domingo, 19 de abril de 2015



Prato feito


Olho para o prato
E me satisfaço... Ou melhor,
Me empanturro só de olhar
Para aquele verde nojo.
O cão vadio me espia guloso,
Jogo um tanto para ele,
Que se indigna e sai.
Penso:- Nem tua fome é tanta?
Saio a procurar outros males...
Encontro à porta uma mulher
Vestida rota, esquisita,
Que também expia a fome,
Relativando a minha...
Nem ela aceita o prato mal feito
De arroz de anteontem
Fedendo azedumes do tempo.
Esta realidade assusta quando
Comparo nossas faltas famélicas
Às dos passantes,
De terno surrado, gravata,
Sob o sol de verão paulista...





Observando essa vida deles
Sinto saudade da minha vida
Pregressa, com arroz e feijão
Cozidos na hora, uma parte
Ínfima de frango
e chuchu à vontade...
O pão... Caseiro...
Que bom que era...
Fosse agora.
Olho para o prato
E vou embora.












As formas de dizer adeus


Há muitas formas
De se dizer adeus...
A mais doída é com os olhos.
Olhares frios não deixam
De mais nada esperar.
Os lenços brancos
Nas mãos abanadas,
Esquecidas no ar...
Os chapéus nos braços
Gesticulados, ou apenas
O olhar, distante,
Num “tanto faz” esnobe
Dos até logos...
Mas o olhar lacrimado
É o mais sentido,
Que se faz sentir,
E que faz sentido esperar
Esquecer o esquecido.





A volta para casa


Voltando para casa,
As flores outra vez dando
Boas vindas...
É um bom começo.
Quem sabe mais alguém
Abra a porta,
Alguém que eu conheça,
Ou que me conheça...
E me receba de braços abertos...
Mas até a casa é outra
Mudou-se de fachadas e janelas,
Portas travadas, travas elétricas...
Os brinquedos na entrada,
O balanço deixado enferrujar...
Uma paz que não compartilha
Com a despedida...
Suamos horas de brincar vivências...
Expedicionar atrás dos muros,
Das cercas balaustradas,
Tempo de procurar encontros...






De vivência pura
Deixada quebrar-se na procura
Doutros suores reais.
Voltando para casa percebo
Que, na verdade, não saí dela,
Não me despedi das coisas velhas.
Agora velho, quero brincar
De esconder-me deles
Atrás dos afazeres, dos muros,
Cercas de balaustres contadas
E conferidas sempre
A caminho da escola,
Também memória.










Expirações


Cada momento respirado
Percebo que menos existo
Em mim...
Como o tronco apodrece
Suas entranhas,
Sinto ceder-me forças.
Devagar nos encaminhamos,
Eu e meu corpo,
Para um desenlace final.
Talvez quando o cansaço,
Que vem avisando,
Der sua ordem de partida,
Eu me vá, sem despedida,
Com a casa limpa,
Cada coisa em seu lugar,
Como Bandeira,
Descompromissado
De voltar.



Onde não estás
Do livro Pinturas Ed. Amazon.com
Nem no grito,
Nem na duração
Do infinito.
Diante de tua finitude sonhas
O tempo que terás de ida...
De idas...
Ao final da trilha verde
De suas verdes lembranças
Estarás livre.

Algo como um passado
Se desenhando futuro,
Repetição das predições aceitas,
Uma vez herdadas do fazer,
Mesmo que o fazer tenha sido
Incauto, até parecer utópico
O amadurecer do fato,
Que uma vez ainda
Será nobre.
Nas asperezas de teus passos
Quem diria, antes,
Que serias hoje o resultado
Desastrado daqueles sonhos?
Talvez seja o que
Se possa esperar dos incautos,
Utopistas daquele tempo...
Mas será sempre
O fim do intento nobre,
Apenas desenhado puro
Diante de tua finitude sonhada
No tempo que terás de ida...
Estarás onde não estás
Por descuido de encruzos
Perdidos no correr da luta,
Nem no grito,
Nem na duração
Do infinito.
Sergiodonadio.blogspot.com

sábado, 18 de abril de 2015



Suspirações


Os pensamentos voam longe
Mas não saio do lugar
Estou aqui plantado
Tanto quanto a quaresmeira
Tentando subir os degraus
Dos muros.
Meus degraus inacessíveis,
Plantei-me aqui em definitivo
E meus pseudoamigos riem
Do que não digo.
Não sei viver-me, sento-me
À beira da piscina
Vendo minha neta sacolejar
Lá dentro, fazendo algo que,
Sei, nunca farei. Dizem que
Porque respiro errado...
Talvez seja a explicação para tudo
Que não sei fazer,
Respiro errado até quando penso.
Assim, no vou a lugar nenhum de meus sonhos,
Plante-me aqui,
Mas, satisfaço-me nisto.
Servidão


Penso nas pessoas que me servem.
Em como servi-los de volta
No mercado, no açougue cortando
Peles e ossos da carne que compro.
Na consulta médica, farmácia,
Cortando a carne que é minha,
Que me veste e está
Enferidando ao sol.
Penso na serventia dos objetos,
Da paisagem ao redor...
Não penso no brilho do dia,
Que vem de longe,
Ou no silêncio da noite,
Que desacontece às onze.
Penso nas prateleiras das vitrines,
Nas virtuais não, nas reais,
Que guardam minhas calças,
Minhas ideias...
Penso em como todos
Me servem favores
E como servi-los de volta.


O sol de ontem


As pessoas gritam ao lado teu
Tentando viverem-te.
Pensando-se vivas
Apenas porque respiram.
Não sabem que morremos ontem
Antes de tirar a barba,
Tomar banho,
Esquentar o pão na chapa...
Fazendo tudo igual anteontem
Quando nos desamamos...
Fazem tudo repetidamente
Até que não saibam mais
Se o estão fazendo outra vez
Ou apenas relembrando...
O que deveriam evitar
De fazer de novo.
De novo apenas o dente caindo,
Desgrudado de vez o último...
Pensam que faz algum sentido
Estirarem-se e esperarem
Voltar o sol de ontem.


Sinceramente


O sincero bicar do pica-pau
Na dura madeira,
Do beija-flor no açúcar,
Da abelha no pólen,
Do gavião na carne viva,
Do urubu na carne morta,
A sinceridade dos amores naturais
De todos eles,
Como do pênis rígido
Declarando amor...
Mais que outros gestos
Ou buquês, anéis, juras...
Juras de sincera necessidade
Das fomes animais
Sobre seus predados
Ou amados
Nos sinceros bicares
Vários...





Assonia


Seria preciso na insônia noite
Sentir os perigos da dor
De não dormir, correr corredores,
Pensar desamores...
Uma paz desconhecida para esses,
Que pairam entre a senilidade
E a aspereza aos senis...
A decrepitude dos pensares afetos,
A leniência das mãos pesadas
Sobre os fracos...
Seria preciso mais que pena,
Consciência,
Mais que lavor... Amor...
Mais que cuidador, cuidado.
Acuidados de serem guardadores
Da insônia noite dos que
Dormem acordados.






A rosa murcha da paz
Do livro Pinturas Edit. Amazon.com

Assombra
A vitalidade dos guerreiros...
Estão por toda parte,
Nas torres altas derrubadas,
Nas meninas sequestradas,
Nas bombas discutidas
A quem se dê o direito
De com elas ameaçar-nos...
A rosa da paz está murcha,
Desencantada com a ferocidade
De nós, donos das verdades
Mentirosamente urdidas
Nas palavras... Na palavra!
A paz se desintegra no fogo
Das alvoradas pérfidas...
Nos fundos dos vales,
Nos corpos recolhidos,
Nas almas desalojadas
A vida de porvindouros
É vida ida.

Sergiodonadio.blogspot.com



Que Deus faça


A estranha chegação de alguns males
Fica inexplicado...
As vilas da cidade com suas ruas
Apagadas
Com lamparinas em suas casas
E latas d’água das cisternas
E riachos/esgotos...
O que se faz com as pessoas
Dessas vilas
Que batalham saídas e chegadas
Sem nem pensar para aonde?
O que se desfaz nas pessoas
Suadas nessas ladeiras?
O que se dispõem a tirar deles
Ainda, além da camisa rota?
A fé na esperança?
O olhar lustroso das alegrias
Da infância!o que se está fazendo
Aos filhos de Deus, Deus faria?